O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.
Arquivos
Links Rápidos
Categorias
E-book
O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.
Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Alegrias da fatiota ou bolsa-paletó
Por Stella Galvão
Há coisa de um mês os nove vereadores de São João do Sabugi (a 310 quilômetros de Natal) ganharam o noticiário nacional com o anúncio de uma proposta bem inusitada. Os edis da localidade, longe de parecerem improdutivos ou toscos, tiveram uma idéia que beira o ‘eureka’ de um inventor. Decidiram em comum acordo estabelecer um valor mensal para se vestirem. Como, diria um apressado, então os vereadores andavam nus? Trata-se de uma daquelas tomadas de consciência das criaturas envoltas em molambos desde criancinhas? É que se trata de molambos dignos de frequentarem salões sem o risco da risadinha de desdém de um cabo eleitoral mais saliente. O caso é que os representantes da municipalidade assumiram de público que o salário mensal é insuficiente para a renovação do guarda roupa com com um paletó ou blazer.
Sim, senhor, vereador que se preze não vai andar pelos corredores de uma acanhada Câmara Municipal de chinelo de dedo, bermuda de algodão cru e camiseta da última campanha eleitoral. Imagine tudo o que está em jogo. Todo aquele simbolismo bonito do poder, dos que lograram êxito em convencer o populacho que as reuniõezinhas semanais produzem resultados para a coletividade. E há o ego, que não deixa a alminha conturbada em paz. Apresentar-se todo lustroso e polido, como uma velha mesa de jacarandá, é um imperativo da condição de edil.
Pois bem, os vereadores receberão a simbólica quantia de R$ 525 uma vez ao ano para se dirigirem a uma loja e arrematar aquela peça de roupa pomposa, toda empertigada quando bem vestida, que a indústria de moda chama de paletó, geralmente em cores sóbrias. O povo de SJ Sabugi prontamente batizou a arrumação de ‘bolsa paletó’. O valor da bolsa corresponde a 35% do salário de R$ 1.500 dos vereadores, que não poderão participar da única sessão semanal sem paletó. O mimoso auxílio custará R$ 4.725 aos combalidos cofres da Casa legislativa.
Com temperatura média máxima em torno dos 31,3º C, localizada na região do semi-árido, o município poderia até mesmo ser escolhido pelo estilista paulista Alexandre Herchcovitch para lançamento de uma coleção masculina, quem sabe sob inspiração dos xiques xiques da região? Pauta para uma reunião inteira dos senhores edis.
Mas que fique claro: Não é o calor que evitará o bom uso da verba pública em troca de um bom paletó ou blazer de uso privativo. Dizem os entendidos que os ardores do verão podem ser perfeitamente superados graças à microfibra, ao algodão, aos tecidos leves e de cores suaves. Dizem mais: que a composição harmônica e perfeita é aquela que combina o estilo com o jeito de ser do homem, seja ele tradicional ou moderno.
E, afinal, a bolsa-paletó decorreu de uma lei municipal aprovada em julho e que obrigou o exercício da vereança sem mangas de camisa durante as sessões da Câmara da cidade. A gravata foi dispensada. A novidade veio a ser aprovada por unanimidade. O presidente da Câmara, Cipriano Neto, alegou que a fatiota permitirá uma “sessão mais organizada”. Quer dizer que antes, com todo mundo livre das mangas compridas, imperava a mais gritante bagunça e algaravia? Neste caso, importa saber que o traje é indicado pelos consultores de imagem como capaz de dotar seu portador de uma aura de respeito, seriedade e profissionalismo. Realmente indispensável para muitos edis deste interior brasileiro.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
Deixe uma resposta