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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Artigo

Elite descarta Bolsonaro para salvar sua agenda

por Ricardo Amaral, no Brasil 247

Mais cedo do que esperavam, Jair Bolsonaro vem mostrando que é disfuncional para o sistema e incapaz de implantar a agenda dos poderosos que bancaram sua eleição. Em sua infinita arrogância, as elites estúpidas deste país apostaram que seria possível educar e domesticar a besta fera, da mesma forma que apostaram no fracasso de Lula. Deu no que está dando. Isso coloca um novo desafio para a esquerda: o de não embarcar em aventuras.

Os sintomas de descarte da laranja chupada brotam de todos as fontes. O Globo diz que “assim não se governa”, o Estado chama Bolsonaro de “ameaça à Nação”. FHC e Alckmin dizem que ele é perigoso e não está à altura do país. Maia e o Centrão lhe impõem derrotas e ditam o ritmo da pauta. As ruas começam a falar. O mercado late para ele em dólares e ibovespas. E os militares fazem silêncio de rádio, como ensina o manual, antes do ataque.

Talvez não seja mais possível esperar que Bolsonaro faça o serviço sujo da Previdência, ou já estejam convencidos de que ele não é apto para a tarefa. É o cenário de uma conspiração em marcha, com destino traçado: trocar o presidente pelo vice, general Hamilton Mourão. Quem faz um impeachment faz outro, pois não?

É nessa canoa que a esquerda não pode embarcar, porque não se trata de um movimento para mudar a agenda que está destruindo o Brasil, mas para garantir sua imposição de maneira mais eficaz. E de maneira ainda mais autoritária, sob a direção de generais linha-dura de raiz, no lugar do capitão tosco de quem agora se envergonham os poderosos que o bancaram para evitar o retorno do PT ao governo.

Os generais cúmplices de Bolsonaro não têm nada de nacionalistas e tampouco respeitam, sequer formalmente, a Constituição, ao contrário do que supõe certa ingenuidade. Foram doutrinados na escola norte-americana e trazem a herança de Sylvio Frota, o comandante do Exército que em 1977 deu um golpe frustrado em Ernesto Geisel, a quem chamava de comunista por não se alinhar aos EUA. Foi sob seu comando que o coronel Ustra torturou e matou.

O general Augusto Heleno, chefe do GSI e decano dos generais bolsonaristas, foi ajudante de ordens de Sylvio Frota. Seu colega Santos Cruz aperfeiçoou-se em combate na Selva em 1975, quando o Exército dizimava a guerrilha do Araguaia. O general Mourão, da mesma geração, estava na ativa em 2017, quando pregou a intervenção militar numa palestra para maçons. O general Vilas Boas, então comandante do Exército, passou pano no insubordinado.

Eles defendem o alinhamento político e militar aos Estados Unidos e todo o programa econômico de Paulo Guedes, da entrega do pré-sal à reforma da Previdência, do desmonte da Petrobrás à venda dos bancos públicos. São devotos do estado mínimo, exceto para eles. São aliados de Sergio Moro na construção de um estado policial. Querem dominar o morro a bala, como fizeram no Haiti.

Mas o primeiro ponto da agenda dos generais é: Lula na cadeia, sob pena de não ser possível impor o restante. Por mais que se entusiasmem pela queda de Bolsonaro via impeachment, as lideranças com responsabilidade na esquerda e centro-esquerda devem se lembrar que o general Villas Boas chantageou o Supremo no julgamento do habeas corpus de Lula e que, empossado, Bolsonaro agradeceu publicamente a manobra ilegal que lhe permitiu a eleição.

O impeachment pode ser a saída constitucional para a encrenca em que as elites se meteram, levando o país de cambulhada. Mas não será a resposta para os problemas reais do país: a estagnação à vista com o programa de Guedes, o colapso das políticas públicas criado pelo teto de gastos, o desemprego, a alta do custo de vida, a volta da fome e a normalização da barbárie.

Para superar a crise nacional é necessário derrotar a agenda do sistema, não apenas seu espantalho. É preciso criar condições para o pais eleger um novo governo, num processo realmente democrático como não ocorreu em 2018. Bolsonaro reage ao cerco com suas milícias digitais e o apelo à insurreição. Ele foi útil para derrotar a esquerda e o PT. Hoje, tenta derrotar a democracia. Um governo Mourão não faria muito diferente.

Imagem reproduzida do Brasil 247

*Ricardo Amaral é jornalista e colunista do site Brasil 247

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