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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
por Ruy Fabiano, em O Globo
O grande vilão desta e de todas as crises continua sendo a imprensa. Todos a acusam. O PT diz que está a serviço do poder econômico e do atraso e é aliada da oposição.
A oposição, claro, diz o contrário, que a imprensa é petista. O PT, no entanto, há anos, a ameaça com um tal de “controle social”, ou “marco regulatório”, eufemismos de censura. Chegou até a imputar-lhe uma sigla: PIG, partido da imprensa golpista.
Os ativistas da revolução cultural (movimentos gay, feminista, abortista, ambientalista, indigenista, vadias etc.), por sua vez, a acusam de estar a serviço do conservadorismo.
O conservadorismo, porém, não refresca: a mídia é o canal pelo qual se processa a revolução cultural, que destrói os valores civilizatórios. Os manifestantes, nas ruas, cercam os carros de reportagem e ameaçam os repórteres.
Este blog mesmo é visto como de direita pela esquerda e de esquerda pela direita. Alguns dizem, inversamente, que precisa descer do muro. Os aliados de José Dirceu criticam seu titular, que apanha de alguns leitores por veicular colunas de José Dirceu.
Como entender a controvérsia? O que parece óbvio é que todos têm razão. Todos se veem – a si e a seu avesso – no que a imprensa veicula, embora seja esta a sua missão: mostrar a realidade em toda a sua complexa diversidade.
Se a realidade é caleidoscópica – e é -, à mídia cumpre o papel de mostrá-la, arrostando as consequências. No passado remoto, antes do advento da imprensa, as notícias eram transmitidas por mensageiros. Em alguns reinados, se portavam más notícias, eram mortos pela simples fatalidade de portá-las.
É como se se confundissem com elas, assim como alguns quebram o termômetro para exorcizar a febre.
Não há dúvidas de que a imprensa é falha. Envolve-se, sim, com causas furadas, comete injustiças, é superficial. Mas faz também o contrário, prestando serviços de inestimável valia ao público. Não é responsável pelo que de ruim (ou de bom) acontece: registra o que vê, ainda que muitas vezes faça opções equivocadas.
Mas, mesmo nesses casos, há sempre espaço para o contraditório. Nenhuma causa, por mais unânime, deixa de se deparar com críticas e contestações na imprensa. Por isso, todos a malham, mesmo os vitoriosos, e procuram responsabilizá-la pelo que é responsabilidade de todos, com a devida carga que a circunstância impõe a cada qual – inclusive a ela própria, mídia.
O que se constata é que, sendo informação poder – e sendo esta a Era da Informação -, a luta de poder reflete-se como nunca nos veículos de comunicação.
As causas hegemônicas, ainda que absurdas, ocupam maior espaço e têm mais defensores e manipuladores. Mas o conflito contemporâneo está todo ali, impresso, televisionado, digitalizado.
Ali, opera-se a catarse, com todas as suas contradições, primarismos e complexidades. Mais que nunca, a mídia é o termômetro, não a febre. Eliminá-la seria ceder ao caos, à impossibilidade de abarcar, ainda que minimamente, a realidade e tentar compreendê-la.
Por isso, ninguém pensa em erradicá-la, mas em dominá-la, colocá-la a serviço de sua própria causa. Como isso não é possível (não numa democracia), todos nela projetam suas adversidades, angústias e perplexidades. Não há inocentes a bordo.
Eis porque, além de informar, o papel da imprensa seguirá sendo, sempre e cada vez mais, o de apanhar. Com ou sem razão. Quem não gosta, procure outro ofício.
* Ruy Fabiano é jornalista
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