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Editorial

Sem anistia: a mensagem clara de ‘Ainda Estou Aqui’, diz editorial do Brasil 247

Se já era extraordinário o desempenho da película “Ainda Estou Aqui” , de Walter Salles Jr., com 3,1 milhões de espectadores no Brasil até o domingo, 5 de janeiro passado, a concessão do prêmio de melhor atriz dramática para Fernanda Torres tem o poder de transformar a obra num fenômeno de público ainda maior.

Até a concessão do prêmio, o filme estava em cartaz em 145 redes de cinema do Brasil, oferecidos em 187 salas. Nesta semana, já são 350 estabelecimentos que o exibem, em 400 salas.

A inédita vitória de  Fernanda Torres para o cinema brasileiro, desbancando competidoras de peso como Angelina Jolie (pelo filme Maria), Nicole Kidman (por Babygirl), Tilda Swinton (por O Quarto ao Lado), Kate Winslet (por Lee) e Pamela Anderson (por The Last Showgirl), vem se prestando a interligar, no filme de Salles Jr.  significados incidentes ao longo de um arco histórico dilatado, sugerindo que o fenômeno da ditadura não foi superado inteiramente. 

O prêmio foi comemorado como se se tratasse de um triunfo equivalente à conquista da Copa do Mundo pela seleção nacional de futebol. O presidente Lula fez questão de ligar para parabenizar a atriz. Nos cinemas, a história da luta de Eunice Paiva após a prisão, tortura e morte do ex-deputado Rubens Paiva, em 1971, por forças da ditadura, tem suscitado aplausos demorados seguidos do grito “Sem Anistia”, entoado pelas plateias.

De fato, Eunice, na busca por esclarecer o destino do ex-marido, na luta por obter um atestado de seu óbito, já havia se tornado uma referência do movimento por verdade, memória e justiça às vítimas das ações sanguinárias da ditadura.

Agora, o filme sobre Eunice, baseado no livro homônimo de seu filho Marcelo Rubens Paiva, oferece a oportunidade para que novas gerações conheçam as violências cometidas naquele período, sob as ordens dos ditadores de plantão e o silêncio, quando não o apoio explícito dos  meios de comunicação golpistas. Espectadores de todo o mundo também se informam agora do que ocorria no Brasil na longa noite que durou de 1964 a 1985.

Mais do que isso, o filme intervém no contexto de agora. 

O grito “Sem anistia” abre-se a diversas leituras. Refere-se ainda à necessidade de esclarecimento, punição e reparação do legado de graves e sistemáticas violações de direitos humanos durante a ditadura de 64. Refere-se, porém, sobretudo, à repulsa dos brasileiros hoje a iniciativas para anistiar o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros, militares e civis, herdeiros e cultores da ditadura anterior, de tentar agora um novo golpe para reeditar o autoritarismo em 8 de janeiro de 2023.

Como aquele golpe, que torturou e assassinou Rubens Paiva e muitos outros, o de agora também previa matar o próprio presidente Lula, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. 

A interpretação de Fernanda Torres (bem como de sua mãe Fernanda Montenegro, que faz Eunice mais velha, no fim da vida, limitada pelo mal de Alzheimer), carrega a força de uma mulher que represa as emoções para atingir sua meta. É sua contenção que  emociona as plateias e as leva a soltar o grito: “Sem Anistia”.

Foto:Gshow/Globo

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