Editorial

Lula, se for condenado, será pela `literatura jurídica´

A célebre frase proferida pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do ex-ministro José Dirceu no Mensalão, “não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”, cabe como uma luva ao juiz federal Sérgio Moro, se condenar Lula por envolvimento na Lava Jato.

Ao depor ao magistrado o ex-presidente foi claro e objetivo quanto a possuir ou não o triplex do Guarujá. Negou veementemente que possuía o apartamento.

O que eu quero é que se pare com ilações e que me diga qual é o crime que eu cometi. O crime não é conversar com alguém na agenda. O crime não é ter ido ver um triplex. O crime, eu cometi, se eu comprei o apartamento, se tem documento que eu comprei, se me deram a chave, se eu dormi lá alguma vez, se a minha família dormiu, se tem escritura pública.

Mais adiante Lula fez um desabafo ao juiz Sérgio Moro:

– Estou sendo julgado pelo que eu fiz no governo. Eu estou sendo julgado pela construção de um PowerPoint mentiroso.

Como eles (procuradores) contaram uma primeira inverdade, eles vão morrer contando inverdade, porque ficaram prisioneiros da imprensa.

O Dr. Dallagnol deveria estar aqui para explicar aquele famoso PowerPoint. Aquilo é uma caçamba, onde cabe tudo.

Estou sendo vítima da maior caçada jurídica que um político brasileiro já teve.

Aqui na sua sala tiveram 73 testemunhas. Grande parte de acusação do Ministério Público e nenhuma me acusou. O que aconteceu nos últimos 30 dias vai passar para a história como “o mês lula” porque foi o mês em que vocês trabalharam, sobretudo o Ministério Público, para trazer todo mundo para dizer uma senha chamada Lula. O objetivo era dizer Lula. Se não dissesse Lula, não valia.

Dr. Moro, é importante que o senhor saiba: de março de 2014 para cá, são 25 capas na Isto É, criando a imagem de monstro. Na revista Veja são 19 capas. Na Época, 11 capas. Dentro [das revistas] é demonizando o Lula. Meus acusadores nunca tiveram 10% do respeito que eu tenho por eles.

O objetivo é tentar massacrar este cidadão, que tem que pagar um preço por existir. Este cidadão cometeu o crime de provar que esse país pode dar certo.

Quando um político comete um erro, ele é julgado pelo povo, não pelo Código de Processo Penal. Eu já fui julgado pelo povo.

Sobre o encontro com Renato Duque no Aeroporto de Congonhas, Lula confirmou:

Tive uma vez no aeroporto de Congonhas, se não me falha a memória, porque tinha vários boatos de corrupção e de conta no exterior. Eu pedi para que o Vaccari porque eu não tinha amizade com o duque trazer o duque para conversar. Foi numa gala em Congonhas. E eu fiz a pergunta simples: tem matérias nos jornais e denuncias que você tem dinheiro no exterior. Que tá pegando da Petrobrás e colocando no exterior. Você tem conta no exterior? Ele disse: ‘eu não tenho’. Eu falei: ‘acabou, se não tem, não mentiu pra mim, mentiu para ele mesmo’”

Fiquei muito puto da vida, muito puto. Falei, ele disse que não. Se ele disse que não, não mentiu pra mim, mas pra consciência dele.

No interrogatório, que mais parecia uma inquisição, deu para notar um insistente empenho do juiz Sérgio Moro em arrancar algo mais de Lula, embora o fizesse sempre de forma educada e respeitosa.

De resto, nada ocorreu com importância ou impacto suficientes para influir na sentença que Moro deverá anunciar lá pela metade do ano.

Portanto, se Lula for condenado, será pela `literatura jurídica´

A conferir!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *