Editorial, O Baú de um Repórter

O baú de um repórter

O blog a partir de hoje cria um novo espaço. Com o título acima vou relembrar coisas que presenciei ou até mesmo participei mas que não viraram notícia.  A verdade é que nesses mais de 20 anos como jornalista tenho guardado informações dignas de serem reveladas agora. Uma espécie de bastidor da notícia. Conversas que presenciei, informações que não puderam ser divulgadas – na época – situações curiosas, enfim, uma gama de assuntos que reportarei ao web-leitor neste novo espaço do blog sem o compromisso de ter dia ou hora determinada para postar. Como primeiro post vou reportar uma história vivenciada por mim e pelo meu colega e amigo repórter fotográfico Marcus Ottoni.

Maluf de pijama na avenida Rio Branco

Era eu chefe da sucursal da extinta EBN [Empresa Brasileira de Notícias] que depois passou a ser Radiobrás no Rio Grande do Norte nos anos de 1980. A sucursal funcionava em quatro salas alugadas no Edifício Cidade do Natal, esquina da rua João Pessoa com av. Deodoro, centro da cidade. 

Marcus Ottoni nessa época trabalhava no Correio Braziliense e estava em Natal acompanhando o então governador de São Paulo, Paulo Maluf, que viajava pelo Brasil em busca de votos dos convencionais que decidiriam o nome do candidato do PDS a ser levado ao colégio eleitoral para a disputa à Presidência da República. O PMDB tinha Tancredo Neves como seu candidato.

A comitiva de Maluf, junto com o pessoal de apoio e os correspondentes dos jornais que o acompanhava nas viagens pelo país ficou hospeadada no antigo Hotel Ducal, hoje alojando as secretarias municipais de Educação e Saúde.

Após um dia acompanhando as visitas de Paulo Maluf aos correligionários em Natal e entrevistas à imprensa, os correspondentes ficaram com a noite livre. Marcus Ottoni e o colega Nelson Pantoja, também do Correio estavam hospedados no oitavo andar do Ducal. Haviam jantado no restaurante do hotel e decidiram dar uma volta. Afinal o material da visita de Paulo Maluf a Natal já tinha sido encaminhado ao Correio Braziliense. Tanto a reportagem de texto, como as quatro fotos enviadas através de máquina de telefoto da UPI, depois de reveladas e ampliadas no laboratório improvisado no banheiro do quarto do hotel. Naquele tempo era assim. 

Depois de algumas cervejas na praia do Meio, Marcus Ottoni e Nelson Pantoja, um paraense, decidiram retornar ao hotel. Segundo me contou Ottoni, ele e Pantoja estavam conversando no quarto – já era altas horas da noite – quando ouviram gritos de “fogo, fogo…”. Quando olharam pela janela, enormes labaredas projetavam-se pela escuridão da noite. Pantoja abriu a porta do quarto e saiu ainda se vestindo. Ele – Marcus Ottoni – também repetiu o gesto do colega. Conta que começaram a descer as escadas junto com outros hóspedes. Quando já estavam no quinto andar, lembrou que havia deixado o equipamento fotográfico no quarto. Voltou correndo, abriu a porta e apanhou a bolsa com o equipamento.

Já na praça Kennedy, um caminhão do Corpo de Bombeiros tentava apagar o incêndio nas Casas Pernambucanas que funcionava próximo ao Hotel Ducal. Marcus Ottoni então retirou a máquina fotográfica da bolsa, equipo-a com o flash e começou então a documentar o incêndio e o trabalho dos bombeiros. Depois de algumas fotos, atravessou a Rio Branco e foi encontrar Nelson Pantoja junto com várias pessoas que observavam o incêndio na calçada em frente as antigas Lojas Brasileiras. 

Foi então que ao olhar para o povo ao lado, viu o governador Paulo Maluf só de pijama, também na calçada da Rio Branco. Focou e começou a disparar o flash. Acredita ter feito umas dez fotos. Depois do primeiro flash, os deputados que acompanhavam Maluf o cercaram tentando protegê-lo das fotos. Já era tarde.

Pois muito bem. Onde é que entro na história: Como a máquina de telefoto da UPI danificou-se com o corre-corre do incêndio, Marcus Ottoni apelou para a sucursal da EBN que ficava próximo ao Ducal. A EBN era a agência oficial do governo federal, cujo presidente era o general Figueiredo e seu candidato preferencial era o ministro Mário Andreazza, adversário derrotado por Maluf na convenção do PDS.

Conclusão da história: Passadas as fotos através da EBN para o Correio Braziliense, elas também chegaram a outros jornais pela Agência Anda, a agência de notícias dos Diários Associados. No dia seguinte as fotos de Maluf só de pijama no meio da rua estavam estampandas nos principais jornais do país.

2 Responses to O baú de um repórter

  1. maria ceica disse:

    Caro Barbosa! Mui interessante a primeira história do seu baú. Que resgate rsrsrssr

    • Carlos A. Barbosa disse:

      Muito bom dia, Maria Ceiça. Olha, se você entrar no Baú de um Repórter vai verificar que tem outras histórias interessantes dos bastidores da notícia. Vá lá, acesse o Baú e obrigado pelo elogio.

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