Editorial

O Tuiuti é aqui

O carnaval carioca, sobretudo, o do Grupo Especial das Escolas de Samba teve um gostinho especial no que toca as críticas sociais e políticas. Ao menos três escolas enfocaram estes dois temas. A Mangueira que tinha como título do seu samba-enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco”, numa alusão ao corte de verba para o carnaval por parte do prefeito Marcelo Crivella, a Beija-Flor, campeã do carnaval que usou o samba-enredo para tecer críticas ao “Brasil monstruoso”, falando de corrupção e intolerância e a campeã moral que ficou em segundo lugar no julgamento dos jurados, que foi a Paraíso do Tuiuti com o samba-enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”.

Mas a Paraíso do Tuiuti se superou. Assim como a escola de Nilópolis, que levou sua crítica social para a avenida, a escola do bairro operário de São Cristóvão, que ficou com o segundo lugar, contou a história da escravidão no Brasil e condenou a reforma trabalhista aprovada recentemente. O destaque da Tuiuti ficou no último carro da escola, que levou um vampiro com a faixa presidencial simbolizando o presidente Michel Temer para a Marquês de Sapucaí. Não só isso, a escola levou o pato Amarelo da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e batedores de panelas. Os componentes destas alas apareceram como marionetes no desfile da Tuiti.

Mas os protestos contra o governo golpista não ficaram só no teatro das escolas de samba do Rio de Janeiro. Em Salvador, Recife, Belo Horizonte e até mesmo no Rio de Janeiro o som “Fora Temer” ecoou por ruas e avenidas e até no aeroporto Santos Dumont, na capital carioca.

Ressalte-se que a Paraíso do Tuiti constrangeu os jornalistas da Globo no sambódromo e até na apuração para divulgação da escola campeã do carnaval. A Tuiuti sempre esteve nas primeiras colocações e só perdeu o carnaval por um décimo. Contudo, na hora da apuração mostrava-se a comemoração a cada ponto conseguido das escolas que estavam na disputa pelo primeiro lugar, e quando se falava na Escola de São Cristóvão os repórteres da Vênus Platinada só divulgavam os números. Só ao final da apuração tiveram que mostrar a comemoração daquela que se atreveu a criticar o governo Temer, inclusive colocando em destaque um vampiro com faixa presidencial e cheio de dinheiro nos bolsos.

Que as críticas do carnaval das escolas de samba do Rio sirva de alerta, pois numa versão nova da música de Caetano Veloso, “O Thaiti é aqui”, eu digo: O Tuiuti é aqui!

A conferir!

Foto: Fernanda Rouvenat/G1

2 Responses to O Tuiuti é aqui

  1. Tales Augusto de Oliveira disse:

    Interessante Barbosa, como as pessoas não conseguem entender que a arte é a favor da contravenção, não no sentido do crime, mas contra o status quo!
    Custo a entender as ácidas críticas nos comentários anteriores, contudo entendo!
    Assim como o capitão do mato que muitas vezes também era negro e tinha um tratamento pouco diferenciado dos demais negros que eram cativos, nós trabalhadores em muitos momentos fechamos os olhos ao que está ocorrendo e ao invés de bater palmas a escola Tuiuti e sua crítica social contra as reformas, há trabalhadores que batem palmas para nossos algozes e acham necessária a reforma trabalhista e quiça previdenciária, assim acabamos como medíocres no pensamento!
    Que pena e parabéns pela postagem que não vi em nenhum momento citar partido algum, porém há pessoas que podiam voltar as cátedras universitárias ou até o letramento para entender e interpretar melhor, namastê meu amigo!

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