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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Jean Paul Prates, no Brasil 247
A notícia de que Elon Musk se tornou o primeiro trilionário da história tem força simbólica suficiente para merecer mais do que admiração ou repulsa. Ela exige reflexão. Não apenas porque se trata de uma fortuna jamais alcançada individualmente, mas porque a forma como esse marco foi celebrado revela algo profundo sobre o espírito econômico do nosso tempo. A marca de US$ 1 trilhão não foi recebida apenas como um dado financeiro. Foi apresentada, por muitos, como uma espécie de consagração histórica da nova economia, da ousadia empreendedora e da supremacia dos ativos sobre o trabalho.
É preciso reconhecer, desde logo, que Musk não é um rentista convencional. Suas empresas mudaram setores inteiros, desafiaram monopólios tecnológicos, aceleraram a eletrificação automotiva, reduziram custos de acesso ao espaço e criaram modelos industriais que muitos julgavam improváveis. A SpaceX, em especial, é uma realização empresarial e tecnológica extraordinária. Nada disso deve ser diminuído. O problema começa quando a celebração do empreendedor inovador se transforma em culto à desigualdade crescente e quando a valorização patrimonial passa a ser tratada como medida suficiente de progresso civilizatório.
A fortuna de Musk não está em salário, nem em caixa pessoal, nem na remuneração direta pelo trabalho. Está fundamentalmente em participação acionária. Está no equity.
Seu patrimônio decorre do valor de mercado atribuído às fatias que detém em empresas como SpaceX e Tesla. Esse detalhe é central, porque ajuda a compreender uma das grandes transformações econômicas das últimas décadas: a financeirização. Em termos simples, financeirização é o processo pelo qual ativos financeiros, expectativas de mercado e valorização patrimonial passam a comandar a lógica da economia real.
A empresa deixa de ser avaliada apenas por aquilo que produz, pelos empregos que gera, pelos lucros que entrega ou pela infraestrutura que constrói. Ela passa a ser medida, cada vez mais, pela expectativa de valor futuro que o mercado decide antecipar no presente.
Esse movimento não é necessariamente negativo. O mercado de capitais tem papel indispensável no financiamento da inovação. Muitas tecnologias de alto risco não sairiam do papel se dependessem apenas do lucro corrente ou do crédito tradicional. Foguetes reutilizáveis, constelações de satélites, veículos elétricos, inteligência artificial, semicondutores avançados e novas plataformas energéticas exigem capital paciente, disposição para risco e confiança em retornos futuros. Sem essa capacidade de financiar o ainda inexistente, a inovação andaria mais devagar.
O problema está na inversão de hierarquia. Uma coisa é usar o capital financeiro para viabilizar a produção, a tecnologia e a infraestrutura. Outra, bem diferente, é tratar a valorização financeira como finalidade última da economia. Quando isso acontece, o mercado deixa de ser instrumento e passa a ser altar. A riqueza deixa de ser compreendida como resultado de uma capacidade produtiva efetiva e passa a ser admirada como fenômeno autônomo, quase mágico, desconectado do mundo físico.
Essa é a parte nefelibata da celebração. É fantasioso imaginar que uma sociedade pode viver indefinidamente de valorizações patrimoniais, múltiplos de mercado e expectativas futuras, como se a produção tangível fosse uma etapa menor, quase vulgar, da economia. Ações não geram energia elétrica. Títulos financeiros não fabricam baterias. Avaliações bilionárias não constroem ferrovias, portos, refinarias, data centers, satélites, cabos submarinos ou redes de transmissão.
A economia financeira pode antecipar valor, organizar risco e multiplicar oportunidades. Mas ela não substitui a economia real.
No fim, toda riqueza financeira precisa estar ancorada em alguma capacidade concreta de produzir, operar, transportar, transformar e entregar.
A meu ver, o risco cultural é ainda mais preocupante do que o risco econômico. Quando jovens executivos, estudantes e formadores de opinião passam a enxergar a posse de ativos como forma superior de realização e o trabalho produtivo como algo secundário, cria-se uma distorção perigosa. O operador de chão de fábrica, o técnico de manutenção, o engenheiro de processos, o trabalhador portuário, o eletricista de rede, o geólogo, o soldador, o mecânico, o professor de escola técnica e o pesquisador aplicado passam a parecer personagens de uma economia antiga, enquanto o acionista, o investidor e o fundador bilionário ocupam todo o imaginário do sucesso. Nenhuma nação séria pode aceitar essa inversão sem pagar preço elevado no futuro.
Sociedades que desprezam quem produz acabam descobrindo, tarde demais, que a riqueza financeira depende de uma base material acumulada ao longo de décadas.
A capacidade de fabricar semicondutores, processar minerais críticos, construir plataformas, produzir aço especial, montar turbinas, operar redes elétricas e dominar cadeias industriais complexas não aparece espontaneamente quando o mercado precisa. Ela exige planejamento, educação técnica, engenharia, investimento contínuo, política industrial, infraestrutura e disciplina produtiva.
É nesse ponto que a China se torna um contraexemplo relevante. Não porque deva ser copiada integralmente em seu modelo político ou institucional, mas porque entendeu, com rara clareza estratégica, que a soberania econômica do século XXI continuaria dependendo de capacidade produtiva.
Enquanto parte do Ocidente celebrava a desindustrialização como etapa natural da globalização e transferia manufatura para países de menor custo, a China formava engenheiros, construía infraestrutura, consolidava cadeias industriais, absorvia tecnologia, ampliava escala e conectava Estado, empresas e planejamento de longo prazo.
O resultado está diante de todos. A China lidera hoje segmentos decisivos da economia contemporânea: painéis solares, baterias, veículos elétricos, processamento de minerais críticos, equipamentos de telecomunicações, manufatura avançada e cadeias industriais associadas à transição energética. Enquanto Wall Street se tornou a grande máquina de precificação do futuro, a China se tornou a grande máquina de produção do presente. A disputa econômica global passou a revelar essa tensão entre quem captura valor financeiro e quem detém capacidade material de fabricar os elementos indispensáveis da nova economia.
A ironia é que a própria economia digital, tantas vezes apresentada como prova da superação do mundo industrial, está mostrando exatamente o contrário. Inteligência artificial exige data centers gigantescos, energia elétrica firme, chips avançados, refrigeração, redes ópticas, cabos submarinos e minerais críticos. Veículos elétricos dependem de minas, refinarias minerais, fábricas de baterias, software embarcado, eletrônica de potência e redes de recarga. Satélites, nuvem, automação, telecomunicações e sistemas financeiros globais também dependem de uma infraestrutura física robusta, cara e tecnicamente sofisticada.
A digitalização não eliminou a economia física. Ela a tornou menos visível para o usuário comum, mas ainda mais estratégica para os países. Por trás de cada clique há energia. Por trás de cada algoritmo há equipamento. Por trás de cada aplicação de inteligência artificial há uma cadeia material que começa em recursos naturais, passa pela indústria e termina em sistemas complexos de operação contínua.
O Brasil precisa compreender essa lição sem cair em fascínio acrítico por qualquer modelo estrangeiro. Não se trata de escolher entre Estados Unidos e China, entre mercado e Estado, entre capital e trabalho. A questão verdadeira é mais exigente: como construir uma economia capaz de integrar capital, tecnologia e produção?
Um país que apenas produz tende a capturar pouco valor. Um país que apenas financia tende a depender da produção dos outros. As nações que liderarão este século serão aquelas capazes de transformar recursos, conhecimento, energia e capital em cadeias produtivas sofisticadas.
O Brasil tem condições objetivas para isso. Dispõe de energia abundante e relativamente limpa, recursos minerais estratégicos, agricultura competitiva, biodiversidade singular, base industrial ainda relevante e um mercado consumidor de grande escala. Mas nenhuma dessas vantagens se converterá automaticamente em desenvolvimento. Sem estratégia, podemos continuar exportando matéria-prima, importando tecnologia, comemorando unicórnios financeiros e assistindo a outros países capturarem o maior valor das cadeias produtivas que começam no nosso território.
A verdadeira oportunidade brasileira não está em produzir o próximo trilionário. Está em construir as bases industriais, energéticas, tecnológicas e educacionais que permitam ao país ocupar lugar central na economia de baixo carbono, na transição energética, na inteligência artificial, na infraestrutura digital, nos minerais críticos, nos combustíveis sustentáveis e na manufatura avançada. Para isso, precisamos valorizar o empreendedor, o investidor e o cientista, mas também o técnico, o engenheiro, o trabalhador industrial e todos aqueles que transformam planos em realidade material.
O feito de Musk é extraordinário e merece ser estudado. O que não merece ser aceito sem reflexão é a ideia de que o enriquecimento patrimonial, por si só, represente o ápice desejável de uma sociedade. Riqueza financeira importa. Capital importa. Mercado importa. Mas todos devem servir a uma finalidade maior: produzir desenvolvimento, inovação, autonomia estratégica e melhoria concreta da vida das pessoas.
Talvez a pergunta mais importante diante do primeiro trilionário da história não seja como alguém conseguiu acumular tanto patrimônio. A pergunta decisiva é outra: que tipo de sociedade estamos formando quando passamos a admirar mais quem detém ativos do que quem produz a riqueza real que sustenta esses ativos?
*Jean Paul Prates é ex-senador pelo Rio Grande do Norte e ex-presidente da Petrobras
Foto reproduzida da Internet
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