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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Florestan Fernandes Jr, no Brasil 247
Não estou falando de uma metáfora ou de uma hipótese distante. Estamos em 2026, a menos de trinta dias do primeiro turno da eleição presidencial, e uma decisão monocrática de André Mendonça acaba de afastar Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, das investigações sobre o Banco Master. Na mesma decisão, Mendonça afastou também o delegado Leandro Almada, diretor de Inteligência da PF.
Mais do que isso: a decisão foi tomada em resposta a petições apresentadas pelo Novo nos dias 2 e 3 de setembro, nas quais o partido pediu a prisão preventiva de Andrei Rodrigues. Mendonça não acolheu esse pedido, mas determinou o afastamento do diretor-geral e do responsável pela inteligência da Polícia Federal.
É uma decisão de enorme alcance. E a primeira pergunta que ela provoca não é apenas se André Mendonça tinha competência para determinar os afastamentos, mas que consequências políticas uma decisão como essa produz quando é tomada justamente no momento em que o país se prepara para escolher seu próximo presidente?
Decisões judiciais não acontecem no vácuo. Produzem efeitos concretos na vida política. E, neste caso, o afastamento do comando da Polícia Federal ocorre justamente quando as investigações do Banco Master envolvem personagens com fortes conexões políticas e podem atingir interesses de diferentes grupos.
É preciso, portanto, olhar para essa decisão para além da disputa jurídica entre autoridades.
Há dúvidas sérias sobre a própria forma e o contexto em que ela foi tomada. É legítimo questionar se um partido político tem legitimidade para provocar uma medida dessa natureza. Também é preciso perguntar: é aceitável, por decisão monocrática, afastar autoridades sem que tenham sido previamente ouvidas? Se existem evidências de erros ou irregularidades em procedimentos específicos, o natural seria investigar esses atos e, se necessário, responsabilizar quem os praticou. Outra coisa, muito diferente, é afastar o diretor-geral da Polícia Federal do cargo.
Há ainda uma questão institucional que não pode ser ignorada. A Polícia Federal está vinculada administrativamente ao Ministério da Justiça. Antes de uma intervenção judicial dessa magnitude, seria razoável que o próprio ministério tivesse a oportunidade de examinar os fatos, adotar as medidas administrativas eventualmente cabíveis e apresentar seus esclarecimentos.
O risco, quando isso não acontece, é que procedimentos administrativos e judiciais deixem de cumprir seus pressupostos legais e objetivos públicos e passem a ser utilizados como instrumentos de uma disputa entre autoridades. E isso é especialmente perigoso quando as acusações ainda precisam ser submetidas ao devido processo legal, ao contraditório e à comprovação dos fatos.
Reitero uma razão ainda maior para que essa decisão seja analisada com lupa: o calendário eleitoral.
O Brasil já passou por isso.
Em 2018, também foi pelas mãos de um juiz que uma decisão judicial interferiu decisivamente na eleição presidencial. Sérgio Moro, então responsável pela Lava Jato, condenou Lula e impediu que o candidato que liderava as pesquisas disputasse a eleição. Pouco depois, aceitou o convite de Jair Bolsonaro e tornou-se ministro da Justiça e Segurança Pública de seu governo.
Não estou dizendo que 2026 seja uma repetição de 2018. Mas seria irresponsável esquecer o que aconteceu.
Agora, novamente, um integrante do Judiciário toma decisões que podem produzir consequências diretas sobre uma eleição presidencial. E o personagem no centro dessa história é André Mendonça, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro.
É por isso que sua atuação nos casos do INSS e do Banco Master precisa ser examinada não apenas pelo que está escrito nos autos, mas também pelos efeitos políticos de suas decisões.
De um lado, investigações envolvendo pessoas próximas ao governo Lula sofrem vazamentos consecutivos, ganham enorme repercussão e são transformadas em munição política. De outro, quando as apurações se aproximam de Flávio Bolsonaro e de suas relações com Daniel Vorcaro, o tratamento é muito mais cuidadoso.
É essa assimetria que precisa ser explicada.
No caso do INSS, Mendonça permitiu que a investigação sobre um suposto tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, ganhasse enorme repercussão política, embora, até aqui, não tenham sido apresentadas publicamente provas capazes de sustentar as acusações mais graves. E existe uma ironia que não pode ser ignorada: o esquema de fraude contra aposentados, que está no centro da investigação, teve origem durante o governo Bolsonaro e passou a ser investigado pela Polícia Federal no atual governo.
Já quando o assunto envolve Flávio Bolsonaro, o tratamento parece ser outro.
O senador mantém uma relação próxima e conhecida com Daniel Vorcaro, a quem chegou a chamar de “irmãozão”. Existe ainda a história do contrato milionário de patrocínio do Banco Master ao filme Dark Horse, no valor de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época. Há meses Flávio Bolsonaro promete apresentar o documento que comprovaria os termos do negócio. Até agora, porém, o contrato não apareceu.
É nesse contexto que o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada ganha uma dimensão que não pode ser ignorada. A Polícia Federal é uma das instituições centrais para esclarecer as relações de Daniel Vorcaro com empresários, políticos e autoridades. Mexer justamente na estrutura que conduz essas investigações, em pleno ano eleitoral, não é um fato politicamente neutro.
Flávio Bolsonaro vem crescendo nas pesquisas. O Banco Master está no centro de uma investigação que envolve bilhões de reais e personagens poderosos. E decisões judiciais tomadas por um ministro indicado por Jair Bolsonaro atingem a estrutura da Polícia Federal responsável por investigar o caso. É impossível olhar para tudo isso e simplesmente dizer que se trata apenas de uma questão jurídica.
Em 2018, Sérgio Moro também dizia estar apenas cumprindo seu dever. A consequência foi a retirada de Lula da eleição e a abertura do caminho para a vitória de Jair Bolsonaro. Depois, Moro deixou a magistratura e tornou-se ministro do presidente beneficiado por aquela decisão.
O que André Mendonça está fazendo em 2026 precisa ser questionado com rigor pelo STF. Está mais do que claro que essa decisão de André Mendonça terá impactos na eleição. Nossa democracia não pode depender apenas da boa-fé de quem exerce o poder de decidir. É necessário criar mecanismos capazes de evitar a instrumentalização da Justiça.
Quando esses limites começam a ser relativizados em ano eleitoral, o sinal de alerta precisa ser ligado.
A história brasileira já nos ensinou que, às vezes, a interferência mais decisiva em uma eleição não acontece nas urnas. Acontece antes, pelas mãos de quem tem o poder de impedir que determinados candidatos cheguem até elas.
Tudo o que está acontecendo neste momento se assemelha ao cenário de 2018. Podemos estar diante de uma nova “facada” que, naquela época, garantiu a vitória de Jair Bolsonaro e afundou o Brasil em um cenário de terra arrasada.
*Florestan Fernandes Jr é um dos idealizadores da TV 247, é jornalista com passagem pelas principais redações do país, entre elas Folha de São Paulo, Jornal da Tarde (JT), TV Globo, TV Manchete, TV Cultura, TV Gazeta, TV Brasil, TVE/Rio, Rede Minas, Rádio Eldorado, Rádio Tupi, Rádio Nova FM e Rádio Musical, além de ter sido colaborador do El País Brasil. É comentarista e editor-chefe do Boa Noite 247 e, aos domingos, participa do Bom Dia 247 como comentarista, ao lado de Hildegard Angel e Leonardo Attuch. Também integra o Conselho Editorial do Brasil 247
Fotos reproduzidas da Hora do Povo
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