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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Época
O desafio da Dilma de Aécio
O tucano Aécio Neves é um dos poucos políticos do Brasil com níveis de popularidade comparáveis aos do presidente Lula. Na última pesquisa Vox Populi feita antes de deixar o governo de Minas Gerais, no fim de março, sua administração foi considerada ótima ou boa por 76% dos eleitores. Assim como Lula, Aécio estava impedido de tentar uma nova reeleição. Assim como Lula, Aécio lançou como candidato à própria sucessão um personagem com perfil técnico e nenhuma experiência prévia em disputas eleitorais. Ao contrário do que ocorreu com Lula, porém, o candidato de Aécio não cresceu significativamente nas pesquisas. Pelo menos até agora.
A Dilma Rousseff de Aécio Neves chama-se Antonio Augusto Anastasia. Tucano e especialista em gestão pública, teve passagens pelos ministérios da Justiça e do Trabalho antes de ser secretário do Planejamento no primeiro governo Aécio. Ganhou notoriedade como o coordenador do famoso Choque de Gestão mineiro. Em 2006, foi eleito vice-governador na garupa de Aécio. A pouco mais de um mês da eleição, seus índices nas pesquisas ainda o colocam bem atrás de seu oponente, o ex-ministro Hélio Costa, do PMDB. De acordo com o último Datafolha, Anastasia está 26 pontos atrás de Costa.
Pouca gente duvida que Anastasia crescerá nas próximas semanas. A dúvida é se conseguirá subir num ritmo suficiente para vencer. Como todos os outros candidatos de Minas são nanicos, é bem provável que a disputa termine no primeiro turno, mesmo com uma diferença pequena de votos entre os dois primeiros. O tempo disponível para a virada, portanto, é bastante apertado.
Istoé
Vale tudo
Eles estão em busca de novos palcos. Alguns já encerraram suas carreiras. Outros constatam, tristemente, que jamais serão populares como nos áureos tempos. Também há aqueles que mal chegaram a disputar um posto de celebridade e se depararam com sinais inequívocos de que o caminho para o estrelato foi tão curto quanto será efêmero. Em todo ano eleitoral a história se repete: um batalhão de ex-famosos e de quase famosos surge nos horários políticos batalhando pelo voto do eleitor brasileiro. É inerente à democracia que qualquer cidadão tem direito de postular um cargo eletivo, mas a profusão de inusitadas candidaturas acaba passando a ideia de absoluta falta de critérios. “É do jogo”, ensina o cientista político Gaudêncio Torquato: “As candidaturas são legítimas, mesmo que acabem funcionando como anzóis para os interesses partidários.”
O cardápio de opções deste ano parece mais amplo. Para eventuais saudosos do boneco Fofão, tem a ex-“Balão Mágico” Simony (PP), candidata a deputada estadual por São Paulo. Aos que não abrem mão da tradição, Sérgio Reis (PR) pode ser opção para a Câmara Federal. Myrian Rios (PDT) avisa aos navegantes que já não responde como atriz e quer distância daquela imagem estampada em revistas masculinas. Ela é missionária e concorre a deputada estadual. A categoria “Mulher Fruta”, a novidade deste pleito, é representada pelas funkeiras Suelem Mendes Silva (PTN), a Mulher Pêra, e Cristina Batista (PHS), a Mulher Melão, ambas candidatas a deputada federal. Entre um sem-número de esportistas surge o ex-boxeador Maguila, que espera receber “votos de gratidão”. “Como não têm mais espaço na tevê, as ex-celebridades buscam na política uma nova forma de estar em contato com o público”, nota Torquato.
As motivações declaradas para estrear na política são variadas. A Mulher Pêra, por exemplo, diz que sempre gostou de “ajudar os outros” e que, por isso, decidiu investir na política. “Durante meus shows a gente perguntava se as pessoas tinham candidato e elas nunca sabiam em quem iam votar. Então o presidente do partido me convidou e eu topei”, explica. A Mulher Pêra acredita que seu papel será o de “fazer leis para o governo”. O costureiro Ronaldo Ésper (PTC), que concorre a vaga para deputado federal e promete “agulhar os políticos em Brasília”, não quer ser considerado “uma figura folclórica”. “Tenho projetos consistentes. Não quero que pensem que sou oportunista nem que me comparem a personagens, como um Tiririca”, avisa. Mas nem Tiririca quer ser comparado a Tiririca. O humorista já avisou que, no Congresso, será conhecido apenas como “Everardo”, seu verdadeiro nome. “Vou ter o voto dos que gostam do meu trabalho e o voto de protesto também. As pessoas estão de saco cheio da política”, acredita Tiririca, que não se despe do personagem para fazer campanha.
A lógica de Tiririca faz sentido, segundo os cientistas políticos. “A política é tão desacreditada e os partidos são tão iguais que as pessoas acabam votando por simpatia”, diz Torquato. A fórmula só não é garantia de sucesso, como comprovam os resultados das eleições passadas. Em meio a um mar de celebridades, apenas o cantor Frank Aguiar, o estilista Clodovil Hernandez, falecido no ano passado, e o filho do apresentador do SBT, Ratinho Júnior, conseguiram uma vaga na Câmara dos Deputados.
Veja
Roberto Jefferson: “Estou me sentindo sufocado”
O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, acordou atacado na última quinta-feira. Mal raiou o dia e ele carregou sua metralhadora giratória. No Twitter, atirou contra o candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra – de quem é aliado – e contra o marqueteiro do tucano, Luiz Gonzalez. Entre outras coisas, disse que mal conhece Serra e que o tucano seria o responsável pela dispersão de seus aliados.
Também postou no microblog que a estratégia de campanha, desenhada por Gonzalez, estaria errada por omitir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. E completou: Serra deveria pôr mais o pé na estrada para acompanhar a corrida às urnas nos estados.
Deputado cassado e réu no processo que investiga o mensalão – maior escândalo do governo Lula – Jefferson tem sido mencionado em perguntas direcionadas ao tucano sobre a aliança do PSDB com o PTB. Interlocutores dizem que o estopim para a revolta foi justamente esse: as respostas de Serra.
Na noite de quinta, Jefferson conversou com Veja.com. Não baixou o tom. Conclamou o PSDB a ser mais firme. “O PSDB é o único grande partido que tem rosto para fazer oposição”. Revelou estar insatisfeito com as diretrizes da campanha de Serra. “Estou me sentindo sufocado”. E exigiu respeito. “Se tem constrangimento, não me receba”.
Lula quer destruir a oposição
Se não assumir uma identidade agora, e se Dilma vencer a eleição, a oposição sai destruída deste pleito. Temos de nos contrapor a Lula, caso contrário, no futuro, ele fará o que quiser. Ele vai construir no Brasil um partido semelhante ao PRI, o antigo partido hegemônico mexicano, que governou a nação durante 71 anos, abrigando políticos domesticados, de todas as ideologias e matizes. Seremos todos lulistas, lutando por migalhas de poder.
O PSDB deveria reivindicar a herança de FHC
Querer se credenciar como herdeiro de Lula sem ser da família de Lula é um grande erro. É isso que a campanha de Serra está fazendo. Eu me lembro, na pré-convenção de Serra em Brasília, quando o Aécio Neves fez um discurso lembrando que o PT foi contra todas as grandes conquistas institucionais do período pós-ditadura. Foi um delírio. Esse é o discurso da oposição, não se pode renegar essa história.
Vamos pôr o Fernando Henrique Cardoso na TV para dizer o que ele fez. Vamos abraçar o seu legado. Os marqueteiros dizem que ele tem rejeição? A tucana Yeda Crusius tinha uma rejeição gigantesca no Rio Grande do Sul e a derrubou com o peito e a cara. O Lula cospe na herança de FHC. Ele reivindica méritos que não são exclusivamente deles. O próprio Bolsa-Família: ele foi aprofundado em oito anos, mas foi Ruth Cardoso quem deu início a esse tipo de programa.
CartaCapital
A guerrilheira, ainda
Por Mino Carta
Por que a revista da Globo desenterra o passado da candidata de Lula?
O passado de Dilma. Documentos inéditos revelam uma história que ela não gosta de lembrar: seu papel na luta armada contra o regime militar. Para explicar a foto em branco e preto estampada na capa de uma Dilma mocinha é o que nos conta a revista Época da semana passada. Não costumo ler a publicação da Globo, mas, alertado pelo leitor Wilson Moreira, de Curitiba, desta vez vou a ela, tomado de curiosidade.
Por que a semanal de uma empresa de comunicação devota da candidatura de José Serra à Presidência da República entrega-se à evocação do passado da antagonista? Haverá quem diga: todos sabem que a candidata de Lula militou na luta armada contra a ditadura e as reportagens de Época se destinam a esclarecer os fatos, documentos à mão. Obra oportuna, portanto. Meritória. E não seria o caso de dizer necessária?
A mídia da Globo não declina a devoção a que me referi acima. Pelo contrário, como o resto dos seus mais ilustres companheiros midiáticos, não perde a ocasião de declarar sua isenção, a qual seria própria do jornalismo verdadeiro, fator indissolúvel da profissão. Trata-se de besteiras dignas de figurar no Febeapá do saudoso Stanislaw, mas as besteiras, abundantes nas nossas paragens, pesam menos, muito menos que a hipocrisia.
Certo é que o qualificativo guerrilheira baila na boca dos frequentadores dos recantos finos para acompanhar o nome da candidata de Lula, quando não é suficiente para identificá-la por si próprio, como seria Perigo Público nº 1 nos tempos de Al Capone.
Leio os dois textos que compõem a reportagem, um sobre a Dilma guerrilheira, outro sobre a Dilma prisioneira. Bem trabalhados, eu diria sem ares de professor. O que me intriga é a pensata. A ideia que pautou os diligentes repórteres. Não, não solfejarei que gostaria de apostar em razões do mais puro jornalismo, voltado à missão de iluminar o caminho dos leitores. Aí eu mesmo mergulharia em hipocrisia.
Confesso que me toma, a soprar na zona miasmática situada entre o fígado e a alma, a convicção de que o intuito de Época foi oferecer munição à campanha de Serra e à ojeriza dos eleitores que apreciam a repressão e temem os reprimidos. Dilma, aliás, nunca pegou em armas e não portava uma na hora da prisão, conforme o depoimento de quem a prendeu. Sem contar que um ou outro dos entrevistados não me pareceram confiáveis, porque ressentidos, presas de velhos rancores.
Pois é, a guerrilheira. Não sei se, de fato, Dilma Rousseff não gosta de lembrar o passado. Sei, porém, que não tem razão alguma para se envergonhar dele. Alguém disse que os moços dispostos a se engajar na luta armada pretendiam transformar o Brasil em “um Cubão”. Sim, a revolução castrista empolgava mínima parte da juventude brasileira, nacionalista a seu modo e prisioneira do confronto entre os dois impérios, URSS e EUA, este para nós, na função de seu quintal, significava a condição de súdito colonizado. A sujeição.
Cuba não é um Brasil, e a revolução de lá foi popular em uma acepção aqui impossível. As diferenças são evidentes e nem por isso foram percebidas por aqueles jovens inquietos que pretendiam enfrentar uma ditadura capaz de ser sanguinária, e sempre ancorada no apoio americano. Inviável apostar então, no país-continente, na adesão de um povo resignado, herdeiro da escravidão.
Digamos que foram sonhadores destemidos, jovens no entanto, em um momento histórico que incendiava o mundo ocidental e que via o Brasil e a América Latina entregues a ditaduras exercidas com extrema violência e com a bênção de Washington. Até Guevara acreditou em uma solução de verdade irrealizável e morreu, assassinado e solitário, cercado por olhares indiferentes. O povo só sabia viver sua miséria.
A história da humanidade é pontilhada pelo exemplo de jovens que ousaram até limites extremos para combater a prepotência. Muitos deles, inúmeros, são celebrados como heróis no mundo todo. Por exemplo, os maquis franceses e os partigiani italianos. Guerrilheiros contra as ditaduras de Hitler e Mussolini, e na maioria de esquerda.
Está na hora de reconhecermos, uma vez por todas, os nossos heróis, acima da retórica dos tradicionais, e espero obsoletos, donos do poder, e a hipocrisia da mídia que os interpreta. O Brasil não virou um Cubão, mas quem lutou contra a ditadura entra na galeria. •
P.S.: O editorial da Folha de S.Paulo de quinta 19 pretende que, ao escolher Dilma, Lula portou-se como se fosse possível tratar a política qual vida familiar ao apresentar “uma candidata que ninguém conhece”. Se fosse, o presidente teria agido como os donos da mídia que colocam seus filhos na direção de jornais, revistas, tevês. Teste: o autor do editorial é: A) Santo; B) Poeta; C) Esquecido.
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