O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.
Arquivos
Links Rápidos
Categorias
E-book
O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.
Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Por Stella Galvão
Desde que foi concebido, Fabiano se viu destinado ao mundo da política. À pergunta clássica ‘o que você vai ser quando crescer?’, o menino respondia sem pestanejar. ‘Político, como meu pai’. Naquela família, como naquele estado, a política habitava os genes. Os filhos, sem o saberem, teriam que manter o espólio da família. O desafio era grande, a concorrência maior – havia cada vez mais herdeiros na disputa. E não envolvia mais apenas a descendência direta –Primos, netos, sobrinhos e outros aderentes eram igualmente envolvidos quando escasseavam os rebentos ou havia mais pleitos a disputar. Se era tão generosa a bolsa da viúva, como um avô mais cínico gostava de chamar as verbas públicas, por que tentar outros meios árduos de ganhar a vida? E era preciso honrar uma certa tradição. Como deixar despencar para o inferno do anonimato político o sobrenome carregado por tantos em cédulas eleitorais? Realmente, era quase inescapável.
Cedo, Fabiano entendeu que nem era necessário queimar as pestanas nos livros para ganhar a vida. Habituado a um padrão de vida de primeiro mundo – diametralmente oposto ao da maciça maioria dos seus eleitores, cedo aprendeu que aquilo, sim, era vida. Digo, boa vida. Ou melhor, vida fácil, ou ainda, vida plena. Tudo do bom e do melhor, carros possantes, circular com freqüência na Disney, até a adolescência, depois nas grandes cidades do mundo, os free shops e tantos etcs mais. Delícia era refestelar-se em hotéis de primeira com a família eleita ou em caravanas ruidosas e sem ônus para os bolsos – tudo à custa da viúva, claro. E a facilidade com as mulheres, então? Quem havia de resistir àquele trem da alegria permanente? Era fácil escolher a eleita para gerar novos descendentes para aquela ciranda sem fim e colecionar as extras para a diversão ser mais completa. Realmente, era muito tentador.
Mas quem disse que tudo eram flores? Não, senhor! A cada quatro anos, tinha início uma busca desenfreada por um novo mandato, o que implicava no desgaste de percorrer quilômetros falando o discurso já decorado, que vamos fazer e acontecer, que vamos resgatar isso e aquilo, trazer melhorias inacreditáveis para a região, o estado, para sua cozinha, quarto e banheiro. O mantra era ‘daqui pra frente, tudo vai ser diferente’. Essa era, realmente, a prova de fogo. Sobreviver a ela se constituía na prova derradeira dos genes vocacionados para a política. Imagine ter que rodar debaixo de um sol calcinante, esbanjar sorriso, driblar o asco do contato corporal com desconhecidos que não tinham o hábito civilizado de banhar-se amiúde e espalhar gotículas de colônia francesa. Argh! E pior, abraçar e carregar no colo crianças remelentas, aquele desfile infindável da pobreza que lhe causava urticária. Á noite, refestelados no salão de jantar do chefe político local, os herdeiros lutavam para recuperar-se para novos embates. Realmente era duro, mas não impraticável. Bastava pensar nos doces quatro anos seguintes.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’.
Deixe uma resposta