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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Geral

Crônica

Vida de professor

Por Stella Galvão

A vida andava meio besta e Cremilda buscava uma alternativa no curto prazo. Foi quando se lembrou dos diplomas de pós graduação depositados no fundo de uma gaveta e então foi à luta: abraçou a vida docente em uma universidade. Seria, ela imaginava, uma rotina tranqüila e sem grandes sobressaltos, ao mesmo tempo dinâmica e plena de pulsões. Cremilda definitivamente não era uma criatura previsível, muito antes pelo contrário.
Recebeu instruções para pegar leve com o bando de adultos recém-saídos da aborrescência, alguns nem isso, apesar da idade já meio avantajada. No começo, parecia que a rotina dos sonhos se apresentara àquela alma dada a cataclismos. Ela, que temia faltar-lhe as pernas na hora ‘h’ e sofrer um breve ataque de pânico diante da bandalha, saiu-se muito melhor que a encomenda. A voz, treinada arduamente nos gritos com que controlava a própria prole aborrescente, respondeu em alto e bom som. No segundo dia desse treinamento forçado, ela viu-se diante de um bando gigantesco, coisa para mais de cem almas espremidas no fundo de um salão largo. Moças e rapazes dados a tagarelices sem fim e com talento especial para ignorar os ensinamentos dos mestres novatos. Fulana se apresentando! Quem?

Foi aí que certo modo de conduzir-se pela vida falou mais alto. É que Cremilda,
embora séria e com a coluna ereta, não era de fugir a uma pândega, longe disso. Naturalmente atrapalhada, protagonizava desventuras em série que inspiravam gargalhadas. Ela ria junto, em alto e bom som. Os pupilos foram relaxando aos poucos. Alguns até mesmo já se jogavam sobre as cadeiras. Ela percebeu, então, que a pós-modernidade de que tanto falava nas aulas, blábláblá do século XX que se espraiava pelo XXI incluía certo jeito de ensinar livre das amarras do passado. Que o riso, o chiste, o trocadilho e o comentário ferino, a ironia, a bobeira fora de hora eram não apenas permitidos, mas desejados para a coisa fluir num ritmo mais próximo ao correr das águas do Potengi.
Como era de flertar com extremos na tentativa de conter aquele povo em plena explosão hormonal, a saída que se apresentou foi transformar todos, em bandos compactos, em substitutos dela própria, Cremilda. Foi quase sublime apanhar no ar aquelas aves que mal ensaiavam o engatar de asas em direção a uma pista de pouso no meio do nada. Acontece que eles também se saíram melhor que a encomenda, salvo as exceções de praxe. Pensavam, elaboravam, expunham. E muito bem, sim, senhora, jogando por terra qualquer tentativa de fazê-los insignificantes, tolos, desinteressados. As lições, diuturnas: 1.Que conviver cordialmente entre pessoas, subvertendo relações de poder enferrujadas, faz um bem danado; 2.Que reunir alunos em volta de si é um bálsamo, um sopro de vida, uma cutucada certeira na mesmice; 3.E que educação, conhecimento, informação, civilidade, são atalhos para escapar da barbárie diária à espreita.

*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19

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