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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
A ascensão da grande mãe arquetípica
Por Stella Galvão
O psiquiatra Carl Jung foi muito mais que um discípulo aplicado do fundador da Psicanálise, Sigmund Freud: coube a ele desenvolver uma teoria que permanece atualíssima e base de toda uma série de estudos que tentam explicar o mundo caótico em que vivemos, nossas mais sinceras ou dissimuladas ações e reações. É um conceito da psicologia que se refere aos símbolos presentes em nosso inconsciente coletivo, que são comuns a todo ser nascido humano. A teoria do inconsciente coletivo – criada pelo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) – afirma que nascemos com um conhecimento que é resultado de experiências já vividas pela espécie.
Os arquétipos são constantes através dos tempos nas mais variadas culturas, incorporando-se aos sonhos e à personalidade das pessoas – eles surgem milenarmente das mitologias que acompanham a história do homem neste planeta. Os mitos se referem sempre a realidades arquetípicas, isto é, a situações com que todo ser humano se depara ao longo da vida, decorrentes dessa mesma condição humana. São situações padrões como nascimento, casamento, envelhecimento, morte etc.
A crença na existência de um ser superior e onipotente, por exemplo, é compartilhada pela maioria das pessoas. O comportamento religioso e a imagem de Deus são típicas representações arquetípicas. Outro exemplo de um arquétipo muito comum à humanidade é o mito do herói, que já foi representado pelos guerreiros espartanos e hoje é simbolizado com nitidez pelos ídolos dos esportes. Pelé, aos 70 recém-completados, é um exemplo de herói arquetípico longevo. No caso do herói, ele pode ser portador de um talento excepcional que o diferencial do comum dos mortais, caso do rei do futebol, ou abraçar essa condição de arquétipos por circunstâncias outras – políticas, sociais, culturais.
Falando de política, um dos arquétipos mais presentes e cultuados nas sociedades é o da grande mãe. Ele se nutre de toda a mitologia construída em torno, por exemplo, da deusa Deméter, aquela que protege, acolhe e alimenta, e que apresenta reservas aparentemente inesgotáveis de energia. A que cuida de tudo o que é pequeno, carente e sem defesa entre os dois mundos, não temendo a morte. Mas na política ela precisará ser firme e recorrer ao animus, arquétipo do masculino descrito pelo filósofo grego Aristófanes em O Banquete, de Platão. Ao contrário, o pai deve incorporar o anima, porção feminina correspondente. Ou, parafraseando o líder Che Guevara, transformado em herói arquetípico para muitos, “Hay que endurecer-se pero sin perder la ternura jamas!”
Deverá, ainda, emprestar um toque da deusa Hera, mulher do todo poderoso Zeus no Olimpo dos deuses da Antiguidade e, portanto, vincular-se ao poder e seus estratagemas. E reunir, como Atena, deusa do conhecimento e sabedoria, todo aquele cabedal de equilíbrio, cultura e educação, além de inclinação para a guerra. O mais curioso é que Atena resultou da cisão da cabeça de Zeus, de partogênese, ou seja, desenvolvimento de uma nova vida sem fertilização. O paralelo com nuestra presidenta fecha, assim, o ciclo arquetípico. Não significa que derivar do homem do povo galgado a herói popular Lula reduza Dilma a uma ninfa. É o que se verá nos ciclos seguintes.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
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