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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Geral

Crônica

É Natal em Natal, afinal

Por Stella Galvão

Adalberto é um homem comum de meia idade, com uma vida ligeiramente ordinária. Funcionário público sem benesses, levanta cedo para tomar o banho, fazer a barba, tomar o café, ler um jornal a caminho do trabalho (no ônibus, claro), bate o ponto, olha os mesmos rostos macilentos todos os dias, beberica café nos pouco intervalos em que não se dedica à coisa pública. A repartição dele despacha providências nas artérias da cidade. ele escreve memorandos, dá andamento a papéis que repousam em outros escaninhos, foge do zum zum da vida alheia que impregna todos e cada um dos seus colegas.

Adalberto é cioso, apenas isso. Julga que tem dever de zelar. Que seja pelo seu pedaço de grama, seu birô de barnabé, as coisas da municipalidade que cabem à repartição pública onde ganha seu pão francês. Que não chega a ser um croissant, é bom que se diga. Um funcionário que se preza, pensa ele, sequer se queixa da vida mansa. Ele trata apenas de contribuir com uma cota pequena, quase invisível, para que um cidadão comum, como ele, sinta-se vivo, partícipe de sua comunidade.

Foi assim com a árvore de Natal da cidade idem, que se transformou em moeda forte para governantes enfraquecidos. Adalberto sabe que a árvore pode exercer um efeito anestésico em quantos contemplam sua miríade de lampadinhas e efeito visual magestoso. Pelo menos foi isso que leu no memorando da chefia explicando a necessidade imperiosa de estourar novamente os gastos energéticos, e de rapidamente quitar a conta atrasada com o fornecedor para não deixar a tal árvore às escuras. Aí, seria a bancarrota, com certeza.

Era apenas o segundo Natal daquele grupo que havia alegremente se acercado do palácio Felipe Camarão. O caso é que se tratava de apresentar uma bela ideia, embrulhada em papel de qualidade mesmo duvidosa, tanto fazia. O que importava mesmo era fixar na multidão de jardineiros a certeza de que a borboleta é um importante agente polinizador, que é tão absurdamente indispensável que danos ou percalços de grande monta em sua trajetória podem até mesmo resultar em graves prejuízos para a flora e fauna e o que mais houver.

Como tinha sido educado para respeitar aquilo que convém respeitar, Adalberto se postava todas as noites, após o expediente, diante da árvore mestra. Sim, porque este ano havia uma segunda ruidosamente instalada em região carente da cidade. Um edil chegou a aclamar, em sessão pública na Câmara Municipal notória por sediar sessões de negociação explícita, que a maravilha não cobrasse da população para ter o prazer inaudito de estar entre barraquinhas e barraqueiros. Sim, claro, havia dinheiro público ali, ele dizia, mas um dinheiro ricamente desperdiçado, dizia outro edil insatisfeito com os holofotes que cegavam o coletivo diante dos desmandos.

Sim, era verdade: ‘Dinheiro não dá em árvore’, recitava Adalberto, preocupado, como funcionário ilibado e ético, com as especulações e acusações que ouvia do povo. Na padaria, no ponto de ônibus, na copa da repartição. No posto de saúde, então, era melhor sair gastando as gratificações para evitar atitudes mais hostis daqueles que voltavam da farmácia com o material ausente dos locais que seriam de assistência pública. Mas e daí? Era Natal, oras. Em Natal, claro.

*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19

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