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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Por Stella Galvão
Dona Cleide era uma senhora de seus setenta e poucos anos. Viúva, assistiu os filhos debandarem para seus próprios ninhos e agora estava a sós, no velho sobrado da família, com ‘doca’, buldogue de estimação, e suas tranqueiras, como chamava cada bibelô pacientemente garimpado em armarinhos de bairro. Seu lazer era a TV, os bordados e a missa semanal. Era de um tempo, no interior, do café servido no bule esmaltado e do bolo batido caprichosamente à mão.
Quando ganhou a batedeira, logo arranjou um cantinho para ela no fundo do armário. O forno microondas, dado por outra filha, ainda lacrado, decorava a cozinha, em branca combinação com a geladeira. Aos filhos incrédulos, dizia que estava tudo muito bom assim, como conhecia. Dessas modernidades, gostava mesmo era do controle remoto. Qualquer cena mais picante ou briga mais acalorada na novela e ‘zap’, até um canal evangélico caía bem por um momento.
A máquina de lavar louças foi doada à igreja, para alegria do pároco, cuja auxiliar faltava às vezes. Pois foi exatamente por meio do padre que aconteceu a conversão de dona Cleide. Era convertida ao Menino Jesus de Praga desde priscas eras, mas nunca, jamais, havia sonhado com a cena daquele domingo. Mal ajeitou o véu ao chegar à igreja, avistou o telão, cobrindo toda a parte superior do altar. Adoentado, o condutor daquele pequeno rebanho católico decidira inaugurar a transmissão da homilia à distância, com todas as facilidades que a tecnologia propiciava, por meio de teleconferência.
A missa, assim, transcorreu tranqüila, exceto pelos resmungos de um ou outro fiel resistente à novidade, entre as quais, claro, estava dona Cleide. Saiu dali remoendo se mudaria ou não de paróquia, mas uma outra surpresa a aguardava naquele domingo, por coincidência seu 75º aniversário. Foi recebida com festa em casa, e os filhos a levaram para a sala de costuras, onde reluzia um computador novinho em folha, com impressora multifuncional e duas potentes caixas de som. Reticente, ela decidiu testar aquela coisa.
Afinal, se o padre havia se rendido à novidade… Começou investindo em sites de culinárias, depois pontos de bordado, dicas no campo sentimental… Pois é, desde que Oswaldo tinha partido, o coração saudável de dona Cleide torcia secretamente por um novo amor. E ele veio pela internet, onde começou um romance feito de muitos e-mails diários com “Seo” Alcyr, um robusto senhor de 73 anos, também viúvo. Logo trocaram número de celular, msn, páginas no facebook. Agora dividem o mesmo avatar no twitter, plugados e conectados entre um chamego e outro.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
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