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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
A melodia de uma música que eu nem gostei insistia em continuar naquele ambiente, misturando vozes e odores. Teve momentos em que pensei estar num navio negreiro. As reclamações e as discussões sem sentido se sobrepujavam aos assuntos e poucos minimizavam a voz em torno do barulho e daquela canção insistente e chata, com alguns clichês do tempo em que foi feita. Mas, a frase tÃtulo não me saiu da cabeça. Aborreci-me por isso, mas o que fazer?
Livrei-me de “lulistas” que insistiam em dizer que o presidente aloprado havia criado 30 milhões de empregos, ao invés de dizer que no Brasil havia aqueles tantos com carteiras assinadas. Sabia que ele somente poderia protagonizar esse prodÃgio no dia em que mudasse as leis trabalhistas, mas não discuti. Como jornalista especializado em polÃtica, aprendi a ficar longe da turba em momentos assim. Na verdade, culpado desde a nascença pela minha mãe, estava refletindo sobre esse momento da letra da música que dizia “a vida inteira para me arrepender”. Por que? Sabe lá Deus, logo eu, cúmplice de tantos arrependimentos cobrados…
Não perdi a oportunidade para sair daquel bar. Queria outro, onde pudesse respirar e sonhar. Sim, porque no silêncio imposto de um bar, é possÃvel sonhar. Quem nunca tentou, não sabe o que já perdeu… Não saà a esmo e nem tampouco titubiante. Tinha um destino certo, nos territórios de minha moradia. Livrei-me dos carros na travessia e não demorei em chegar semi-suado onde queria. O balcão, qual um porto, esperava minha atracação. Atraquei, amarrei as cordas do meu pedido e numa maré sem confusão, comecei a organizar meus pensamentos, meus sonhos.
Meu olhar, meio fixo na parede frontal, onde se destacavam propagandas de salgados industrializados foi logo remetido as laterais. Essa minha velha mania de fazer amizades! Mas, quem eu vi, era um amigo de mais de 30 anos. Um homem que era rico noutros tempos e que hoje, protegido pela penumbra daquele bar solidário, apenas tomava pequenos goles de cachaça. “Meu amigo!” Falei mais alto do que devia. Senti isso no seu olhar entre reprovador e entendedor.
“Você me conheceu tomando úisque 12 anos, hoje tomo cachaça. O gosto é o mesmo, quando se quer apenas beber”, ensinou-me. Conversamos muito enquanto eu tentava segurar a tristeza porque havÃamos nos tornado pobres, ele nem ligava. “Amigo velho, tudo tem seu tempo. Eu tenho as memórias de quando eu tinha apartamentos na avenida Hermes da Fonseca e andava de Maverick V8. Mas, isso que aconteceu, está na minha mente. Hoje ando de ônibus, carrego uma quentinha para almoçar, ganho um pouco mais de um salário mÃnimo por mês, mas não me arrependo de nada do que fiz”, foi incisivo.
Meus olhos de também fracassado financeiramente, falaram. Ou terá sido a minha boca? Quando eu disse que tÃnhamos “a vida inteira para se arrepender”. A resposta daquele meu amigo, que tinha perdido muito mais do que eu, foi um remédio. “Eu não me arreependo de nada do que fiz, apenas do que deixei de fazer”.
Depois que ele saiu para pegar o ônibus, saà caminhando em direção a minha casa. Parecia que dirigia um dos jipes importados que eu já tinha tido. Carregava no meu alforge de pensamentos apenas uma coisa: que venha a vida. Nada tenho do que me arrepender.
Por Leonardo Sodré
* Leo Sodré é jornalista e escritor, e colabora com o Blog escrevendo artigos e crônicas sempre nos finais de semana neste espaço
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