O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.
Arquivos
Links Rápidos
Categorias
E-book
O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.
Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
O Haiti pode ser aqui
Por Clóvis Rossi, na Folha
Em dezembro de 1986, o então presidente José Sarney me deu carona no avião da Presidência em que visitaria João Câmara, uma cidadezinha perdida no sertão do Rio Grande do Norte, em que ocorrera pouco antes um abalo de terra, o fenômeno mais próximo de terremoto que nós brasileiros conhecemos.
O estrago não fora grande, pelo menos não para os padrões da mídia, que costuma medir fenômenos pelos números altos de mortes/destruição que causam. Mas para os moradores locais fora certamente uma tragédia, se o leitor me perdoa usar uma palavra forte para um fato que não tem comparação com a tragédia do momento, a do Haiti.
De todo modo, a UnB (Universidade de Brasília) registrou que foi “a mais espetacular, a melhor documentada e estudada atividade sísmica já observada no Brasil. O primeiro evento, sentido pelos moradores e por parte da população de Natal, foi registrado em Brasília, em 21/08/86 e alcançou magnitude 4.3. No mês seguinte (3 e 5/09/86), dois eventos com magnitudes 4.3 e 4.4, também sentidos, provocaram pequenos danos e foram acompanhados por várias outras réplicas. Nas semanas posteriores a sismicidade decresceu, mas, no dia 30/11/86, aconteceu o principal tremor de toda a série, com magnitude 5.1. Ele foi seguido por centenas de réplicas, quatro delas com magnitude maior ou igual a 4.0. Danos significativos ocorreram tanto na área urbana como na rural fazendo com que grande parte da população abandonasse a cidade.
Os sismos destruíram ou danificaram 4 mil casas e 500 delas foram reconstruídas adotando certas normas antissísmicas, desenvolvidas pelo Batalhão de Engenharia do Exército. Os grupos de sismologia da UnB, da USP e da UFRN desdobraram esforços para documentar, estudar e mesmo orientar as autoridades diante da constância dos abalos sísmicos”.
O caso de João Câmara voltou à memória não apenas pelos episódios do Haiti mas também por um texto no jornal “El País” de Miguel Ángel Herrero, diretor-regional da ONG Intermón-Oxfam para a América Central e o Caribe.
Herrero diz, com mais profundidade, o que escrevi nesta mesma “Janela” na véspera, dividido em duas partes básicas: primeira, “ninguém pode evitar um terremoto como o que ocorreu”; segunda, “mas podemos, sim, fazer algo (ou muito) para reduzir a vulnerabilidade de quem tem que viver com esse perigo”.
No Haiti, sempre segundo Herrero, o desastre, além do terremoto que ninguém podia mesmo evitar, “foi causado também pelo ‘dumping’ que obriga os camponeses a abandonar seus campos de arroz em Artibonite e emigrar para capital, pelas condições em que se aglomeram centenas de milhares de pessoas em distritos como Cité Soleil ou Martissant, a falta de emprego para a maioria dos jovens em Porto Príncipe, os serviços sanitários que não cobrem as necessidades mais básicas da população, a insuportável inflação dos preços dos alimentos em 2008”.
Conclusão: “A pobreza atrai o desastre”.
Guardada a grande diferença de proporções entre o país mais rico da América Latina (o Brasil) e o mais pobre (o Haiti) e excluída a inflação, os atores coadjuvantes de eventuais desastres estão presentes não apenas em João Câmara mas em incontáveis outras localidades brasileiras. Tantas que não há batalhões de Engenharia do Exército suficientes para construir casas com “certas normas anti-sísmicas” ou anti-enchentes ou anti-deslizamentos ou anti-qualquer outro fenômeno violento da natureza.
Lá como cá, a pobreza também pode atrair o desastre.
Deixe uma resposta