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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Joaquim de Carvalho, no Brasil 247
A operação deflagrada nesta segunda-feira pela Polícia Civil de São Paulo adicionou um novo elemento à crescente rede de investigações que hoje orbitam o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. A ação policial teve como alvo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama, ex-assessora no governo Bolsonaro e também proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa.
Segundo a investigação, a polícia apura suspeitas de fraude, superfaturamento e desvio de recursos públicos em um contrato firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para implantação de pontos de internet gratuita na periferia da capital.
A investigação teve origem em um caso de feminicídio, quando um subcontratado do ICB, dono da empresa Favela Conectada, Alex Leandro Bispo dos Santos, foi acusado de matar a esposa, a influenciadora Maria Katiane Gomes da Silva.
Na quebra de sigilo de Alex, foram descobertos repasses milionários do Instituto dirigido pela jornalista Karina para a Favela Conectada, que não teria cumprido as cláusulas contratuais. No contrato, aliás, a influenciadora Maria Katiane aparece como testemunha.
O contrato, originalmente estimado em R$ 108 milhões, teria alcançado R$ 157,1 milhões após aditivos. Os investigadores afirmam que pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem a efetiva prestação dos serviços contratados.
O aspecto mais sensível da investigação é que a Polícia Civil passou a apurar se parte desses recursos públicos pode ter sido desviada para estruturas ligadas à produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
Em representação encaminhada à Justiça, os investigadores apontaram suspeitas de “confusão patrimonial” entre o Instituto Conhecer Brasil e a Go Up Entertainment e pediram análise das movimentações financeiras justamente para verificar se recursos do programa municipal teriam sido utilizados para custear atividades relacionadas ao longa-metragem.
O braço fluminense do suposto esquema
A relevância dessa nova investigação decorre do fato de que o financiamento de “Dark Horse” já estava no centro de outra controvérsia nacional, a revelação de que US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões à época — teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para estruturas vinculadas ao filme.
A cronologia conhecida hoje chama atenção.
Em outubro de 2023 começaram os aportes do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao Banco Master, instituição controlada por Vorcaro. Em novembro do mesmo ano surge o contrato do projeto cinematográfico, então chamado “O Capitão do Povo”. Em janeiro de 2024, Eduardo Bolsonaro assina digitalmente o documento como produtor-executivo.
Ao longo de 2024, segundo a Polícia Federal, os investimentos do Rioprevidência em estruturas ligadas ao Master cresceram até alcançar aproximadamente R$ 3 bilhões sob investigação. Nesse mesmo período, a PF descreve sucessivos encontros entre o então governador Cláudio Castro e Daniel Vorcaro, incluindo reuniões em instalações oficiais do governo do Rio de Janeiro e encontros privados no exterior. Segundo os investigadores, alguns desses encontros foram seguidos por novos aportes milionários do fundo previdenciário estadual.
Paralelamente, consolidava-se a aliança política entre Cláudio Castro e Flávio Bolsonaro. Desde o início do governo Castro, o grupo político do senador ampliou sua influência sobre a administração fluminense por meio de alianças eleitorais, indicações políticas e apoio mútuo na construção do campo bolsonarista no estado.
No final de 2024 surgem as tratativas para financiamento do filme. Em fevereiro de 2025 aparecem os primeiros repasses conhecidos publicamente atribuídos ao projeto. Agora, em junho de 2026, a Polícia Civil de São Paulo passa a investigar se outra fonte de recursos públicos — desta vez vinculada a um contrato municipal de internet — também pode ter sido utilizada para financiar estruturas relacionadas ao mesmo filme.
Nenhuma dessas investigações provou até o momento que recursos públicos do Rioprevidência, da Cedae ou da Prefeitura de São Paulo tenham financiado diretamente “Dark Horse”. Porém, o que emerge é um padrão que exige apuração aprofundada: diferentes estruturas abastecidas por recursos públicos aparecem conectadas, em momentos distintos, a pessoas, empresas ou organizações relacionadas ao financiamento e à produção da obra.
A questão central deixa de ser apenas quem financiou o filme. A pergunta que as autoridades agora precisam responder é se os recursos empregados na produção tiveram origem exclusivamente privada ou se parte deles percorreu circuitos financeiros alimentados, direta ou indiretamente, por contratos públicos, fundos estatais ou instituições beneficiadas por aportes governamentais.
A operação desta segunda-feira amplia significativamente o escopo dessa pergunta. O que antes parecia restrito às relações entre o Banco Master, o Rioprevidência e o grupo político bolsonarista passa agora a alcançar também a produtora responsável pelo filme e contratos públicos firmados em outra esfera de governo.
Por isso, a reconstrução completa dos fluxos financeiros deixou de ser apenas uma questão de interesse político. Tornou-se uma necessidade institucional para esclarecer se diferentes investigações hoje dispersas tratam, na realidade, de partes distintas de uma mesma engrenagem financeira.
Os sigilos de todos os envolvidos, inclusive o de Flávio Bolsoanro, precisam ser que brados, pelo bem da investigação.
*Joaquim de Carvalho é colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br
Imagens reproduzidas da Internet
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