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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Está na Revista Fórum
Preso na Bolívia acusado de ser o mandante da tentativa de assassinato da ex, a advogada Nádia Beller, o argentino Fernando Cerimedo, personagem central de uma rede transnacional de comunicação política da extrema direita latino-americana, não atuava sozinho no Brasil. Seu sócio nos Estados Unidos, Damián Merlo Debernardi, também teria assessorado Jair Bolsonaro (PL), segundo reportagem publicada pelo site argentino Página/12 neste sábado (29). Os dois aparecem ligados ainda às campanhas de Javier Milei, na Argentina, e de Rodrigo Paz, na Bolívia, além de trabalhos relacionados a outros nomes da direita regional.
A revelação joga luz sobre uma estrutura que vai muito além do conhecido papel de Cerimedo como estrategista digital. A partir de empresas instaladas na Argentina e nos Estados Unidos, o grupo passou a atuar em campanhas eleitorais, comunicação política e articulação com círculos de poder em Washington.
E há um dado financeiro que chama atenção: em seu primeiro depoimento formal às autoridades bolivianas, obtido pelo jornal argentino La Nación, Cerimedo afirmou ter acumulado cerca de US$ 1 milhão por mês em 2025 e em 2026, com atividades realizadas fora da Bolívia. Ele disse atuar como consultor político em diferentes países e possuir empresas na Argentina e nos Estados Unidos.
Na segunda-feira (24), reportagem da Fórum mostrou que Damián Merlo, sócio de Cerimedo, pode explicar os milhões de dólares de Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro depoistados no fundo Havengate, nos EUA.
O sócio que abriu as portas de Washington
A reportagem de Gustavo Veiga no Página/12 apresenta Damián Merlo Debernardi como o homem que ajudou a abrir para Cerimedo as portas de Washington.
Argentino-estadunidense e proprietário da empresa Latin America Advisory Group (LAAG), Merlo aparece em registros apresentados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos sob a legislação conhecida como FARA, que obriga o registro de determinadas atividades realizadas em nome de interesses estrangeiros.
Segundo documentos analisados por reportagens sobre a estrutura, Merlo foi contratado em 2023 pela NUMEN, empresa ligada a Cerimedo, para realizar serviços de relações públicas e contatos com Congresso, imprensa e centros de estudos em favor da campanha presidencial de Milei.
É justamente nesse ponto que a história ganha dimensão internacional.
Cerimedo e Merlo não aparecem apenas como profissionais contratados para produzir peças de propaganda eleitoral. A estrutura descrita pelos documentos envolve comunicação, lobby, relações públicas e acesso a instituições políticas dos Estados Unidos.
O Página/12 afirma que os dois assessoraram Jair Bolsonaro, Javier Milei, Nayib Bukele e Rodrigo Paz, entre outros líderes da direita latino-americana.
A conexão com Bolsonaro
A relação de Cerimedo com o bolsonarismo não é nova. Em 2022, o argentino ganhou projeção no Brasil ao participar de uma transmissão nas redes sociais na qual apresentou alegações falsas sobre as urnas eletrônicas e tentou colocar em dúvida a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Jair Bolsonaro.
Cerimedo também manteve relação próxima com Eduardo Bolsonaro. Uma fotografia publicada pelo La Nación mostra os dois juntos durante uma visita do filho do ex-presidente à Argentina. O próprio Eduardo já afirmou publicamente que Cerimedo havia “ajudado o Brasil”.
A novidade agora é a dimensão da relação: segundo o Página/12, Merlo Debernardi também assessorou Jair Bolsonaro.
Ou seja, o que aparece é uma dupla de estrategistas com atuação internacional e trânsito entre diferentes grupos da direita radical latino-americana.
US$ 1 milhão por mês
O dado financeiro foi revelado em uma declaração prestada por Cerimedo às autoridades bolivianas durante uma investigação sobre seu patrimônio. Questionado sobre sua renda mensal em 2025, respondeu que recebia aproximadamente US$ 1 milhão por mês com atividades fora da Bolívia.
Para 2026, afirmou que o valor era semelhante, embora tenha feito a ressalva de que se tratava de uma média considerando o período do ano e os rendimentos de suas empresas no exterior.
Cerimedo declarou possuir a empresa Numen Group nos Estados Unidos e uma empresa de publicidade na Argentina, com cerca de 35 funcionários, duas unidades e 12 clientes. Também citou uma academia de tecnologia, uma produtora audiovisual e outras empresas. Não informou, contudo, os nomes de seus clientes.
O valor informado é uma declaração do próprio Cerimedo, e não uma comprovação independente de que ele tenha efetivamente recebido US$ 1 milhão todos os meses. Ainda assim, a cifra é relevante porque ajuda a dimensionar o tamanho do negócio que ele próprio descreve às autoridades.
O dinheiro, as empresas e a política
A declaração de Cerimedo ocorreu no contexto de uma investigação boliviana sobre suposto enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro.
Segundo o La Nación, o argentino afirmou possuir contas bancárias na Argentina e nos Estados Unidos e disse que seus bens estavam registrados em seu próprio nome. Ele também declarou que sua atuação na Bolívia incluía serviços de “comunicação digital” para Rodrigo Paz durante a campanha eleitoral de 2025.
Há, porém, contradições interessantes em seu depoimento. Questionado sobre quem coordenava suas atividades na Bolívia, Cerimedo respondeu que era ele próprio. Perguntado sobre seu principal contato dentro do entorno de Paz, respondeu: o próprio presidente.
Ao mesmo tempo, quando questionado sobre quem lhe fornecia informações para realizar suas atividades e quem financiava seu trabalho, respondeu que ninguém. Cerimedo também disse não se lembrar de quem o havia colocado em contato com Paz e afirmou que não havia contrato escrito para seus serviços durante a campanha.
A máquina digital
A atuação da dupla também passa pelo terreno da comunicação digital. Reportagens baseadas em documentos e registros nos Estados Unidos descrevem uma estrutura empresarial articulada entre Miami e Washington. A NUMEN Advisors LLC, constituída na Flórida em 2023, aparece como uma das peças dessa arquitetura, ao lado de plataformas de comunicação como La Derecha Diario e UHN Plus.
No caso de Merlo, registros do FARA documentam atividades junto a escritórios do Congresso americano e contatos com integrantes do governo e de centros de influência política em Washington.
A estrutura também passou a chamar atenção na Bolívia depois que autoridades encontraram uma espécie de “faazenda de bots” em um imóvel relacionado a Cerimedo. A suspeita é de que equipamentos e contas fossem utilizados para gerar interações em massa e interferir artificialmente no debate político nas redes sociais.
Da eleição brasileira à rede latino-americana
A trajetória de Cerimedo ajuda a compreender como a extrema direita latino-americana passou a compartilhar não apenas discursos e bandeiras, mas também profissionais, empresas, métodos e estruturas digitais.
Brasil, Argentina, Bolívia e outros países passaram a fazer parte de um mesmo circuito de consultores e operadores políticos.
No caso brasileiro, Cerimedo ganhou notoriedade ao atuar na ofensiva contra o sistema eleitoral durante a campanha de 2022. Depois, sua trajetória avançou para a Argentina de Milei e, mais recentemente, para a Bolívia de Rodrigo Paz.
Agora, a reportagem do Página/12 acrescenta uma peça importante a esse quebra-cabeça: seu sócio Damián Merlo também teria trabalhado para Jair Bolsonaro.
De Bukele ao MAGA
O nome de Merlo ganhou ainda mais relevância com a ascensão de Nayib Bukele, ícone da ultradireita, em El Salvador. Documentos do governo salvadorenho registrados no FARA mostram que a Latin America Advisory Group, de Merlo, prestou serviços de assessoria de assuntos governamentais à Presidência de El Salvador. Um contrato de extensão referente a 2022 estabeleceu pagamentos de até US$ 390 mil, em seis parcelas de US$ 65 mil. O documento é assinado por Merlo e pela Presidência salvadorenha.
A relação com Bukele é descrita também pela revista The New Yorker. Em reportagem publicada no último dia 18 de agosto, o jornalista Daniel Castro identifica Merlo como um lobista argentino-americano que trabalha para figuras políticas latino-americanas de direita e que atuou como assessor de política externa de Bukele. Segundo o próprio Merlo, ele conheceu o salvadorenho quando ainda era prefeito de San Salvador e trabalhou com ele desde a campanha presidencial de 2019.
Merlo diz ter ajudado a organizar entrevistas de Bukele, inclusive uma conversa com o mesmo Tucker Carlson em 2024, que ultrapassou 7 milhões de visualizações no YouTube. Ele também afirma ter passado a noite com Bukele preparando seu discurso para a Assembleia Geral da ONU de 2019, ocasião em que o presidente salvadorenho fez a famosa selfie no púlpito. Segundo Merlo, o próprio Bukele dirigia pessoalmente boa parte da produção de seu conteúdo.
O modelo de Bukele e Flávio Bolsonaro
A New Yorker coloca a visita de Flávio Bolsonaro ao CECOT, a gigantesca prisão construída por Bukele, dentro de um movimento maior de exportação do modelo salvadorenho para a direita latino-americana.
A reportagem afirma que o presídio e a militarização da segurança pública em El Salvador deixaram de ser apenas instrumentos de propaganda de Bukele e passaram a funcionar como um “playbook” eleitoral. Flávio Bolsonaro aparece entre os políticos que adotaram essa estratégia e, segundo o texto, fez uma peregrinação ao CECOT em 2025.
A conexão é relevante porque o próprio Merlo é apresentado pelo New Yorker como um dos operadores da projeção internacional de Bukele e da aproximação do presidente salvadorenho com o MAGA e a Casa Branca.
Cerimedo está preso na Bolívia
Cerimedo está em prisão preventiva na Bolívia no âmbito de uma investigação sobre um ataque a tiros contra sua ex-companheira, a advogada e analista política Nadia Beller. Ele nega envolvimento no atentado.
As autoridades bolivianas também abriram investigações por suposto enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro e passaram a apurar possíveis vínculos com o tráfico de drogas. As acusações ainda estão sob investigação e não representam condenação.
Em uma mensagem divulgada por seus advogados, Cerimedo negou ter tido autorização para representar Rodrigo Paz ou sua família e afirmou que seu papel como colaborador não lhe dava poder para tomar decisões em nome do governo.
A carta, porém, não responde à questão que começa a emergir da própria documentação: qual era exatamente o tamanho da estrutura política e empresarial construída por Cerimedo e seus sócios para atuar nas campanhas da direita latino-americana?
A cifra de US$ 1 milhão mensais declarada pelo próprio argentino, a sociedade com Merlo Debernardi e os registros de atuação política nos Estados Unidos ajudam a colocar essa pergunta no centro da investigação.
Foto reproduzida da Internet
Em tempo: no último dia 24 de agosto foi publicada no Blog uma reportagem, com vídeo, inclusive, em que Eduardo Bolsonaro confirma que Cerimedo ajudou na tentativa de golpe de Estado de seu pai e sinalizou, antes de ser preso, ações com Flávio Bolsonaro candidato à Presidência do Brasil. Clique aqui para conferir
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