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Baú de um Repórter

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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Editorial

Crônica – Terapia Monetária

Leo.jpgOs irmãos Juquinha e Joquinha dirigiam o Bar Vermelhão havia 20 anos. Todos os dias os dois abriam juntos o estabelecimento, localizado numa esquina de importante rua de bairro nobre de Natal (RN), bem cedinho. Ambos serviam, cozinhavam, cobravam os pregos e agüentavam os bêbados que pululavam no bar que havia se transformado, ao longo do tempo, numa referência da boemia natalense.

Eles criaram um sistema de marketing que revolucionou o atendimento e agradava os clientes. O esquema era simples. Eles apenas admitiam as excentricidades da freguesia e tomavam cuidado para colocar em prática. Explico: Havia freqüentadores que gostava de beber em determinado tipo de copo, outro que exigia que a cerveja ficasse na geladeira e que cada copo fosse servido por um dos dois. Outro, que se obrigava a tomar determinada quantidade de doses que teria que ser controlada pelos irmãos, e alguns exigiam lugares cativos que ninguém ocupava. Tinha até quem tomasse porrres por meio de muitas meias doses.

Depois de tantos anos, começaram a cansar. Afinal, nenhum dos dois tinha direito a descanso nos finais de semana porque o bar abria no início da manhã de domingo a domingo, sem hora para fechar, indo, muitas vezes, com suas atividades etílicas até a madrugada. Chegaram a trabalhar até o raiar de outro dia, várias vezes.

Um dia, resolveram tomar uma decisão para que pudessem usufruir do dinheiro que ganhavam e que ao longo dos anos transformou-se numa interessante poupança. E os dois adoravam dinheiro. Queriam viajar, curtir a família, enfim, terem férias como todas as pessoas normais que trabalham. Depois de muitas discussões resolveram que cada um iria trabalhar uma semana e folgar outra. Assim, ao longo de um ano, trabalhariam apenas seis meses. Quase uma aposentadoria!

A primeira folga foi reservada para Juquinha. Ele quase não acreditou quando acordou na segunda-feira sem ter a obrigação de ir trabalhar. Não saiu de casa. Viu televisão, leu, dormiu, e no final do dia estava impaciente. Seu ciclo de amizade era restrito aos freqüentadores do Vermelhão e ele não tinha como realizar algumas atividades de lazer, a não ser que fizesse isso sozinho. E, ele não gostava de estar sozinho. Lá pela quarta-feira Juquinha já estava depressivo. Chegou a telefonar para um amigo dizendo que ia ser difícil ficar trabalhando uma semana sim, uma semana não.

Detestava gastar dinheiro e não entendia porque de vez em quando sua mão direita procurava de forma involuntária o bolso de sua bermuda, onde ele normalmente guardava o dinheiro do apurado do bar. “Por que será?”. Perguntou-se, cada dia mais triste, depressivo e irritado. Pensou muito nisso durante a noite insone.

Não queria gastar com médicos, e na quinta-feira uma luz acendeu-se no seu cérebro. “Pronto! Vou ficar bom sem gastar uma prata”. Comemorou. Tinha certeza que havia concebido uma terapia alternativa para curar aquele sofrimento.

Saiu de casa pela primeira vez naquela semana. Foi ao Banco do Brasil e sacou R$ 500,00 no caixa eletrônico. À tarde, o mesmo amigo telefonou para saber como estava.

– Estou bonzinho da depressão! Gargalhou

– Mas como? Indagou o amigo. Ontem mesmo você estava completamente por baixo…

– Isso foi ontem! Respondeu. Agora, quando a tristeza começa a chegar, simplesmente eu começo a contar dinheiro e fico bonzinho na mesma hora!. Vou ensinar esse método aos médicos que bebem lá no Vermelhão. Dinheiro cura tudo!

* Essa história é real e apenas os nomes foram trocados a pedido do personagem principal

Por Leonardo Sodré 

Léo Sodré é jornalista e escritor e colabora com o Blog escrevendo sempre artigos e crônicas às sextas-feiras neste espaço 

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