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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Época
Um novo dirigente do governo é acusado de desviar 4,6 mi do BVA
Em setembro do ano passado, o governo Dilma, atendendo a uma antiga reivindicação de uma ala do PT, criou um fundo de pensão para os servidores públicos federais. O fundo, batizado de Funpresp (Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal), cuidará da aposentadoria dos concursados que começam a trabalhar em 2013. Os atuais servidores também podem aderir: são ao menos 490 mil potenciais clientes, distribuídos entre funcionários do governo federal, do Congresso, do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União. Numa tentativa do governo de diminuir a hemorragia financeira da Previdência pública, cuja conta não fecha faz tempo e só piora com os anos, esses novos servidores, se quiserem uma aposentadoria à altura dos excelentes salários que recebem, deverão contribuir para o Funpresp, como acontece com os trabalhadores de empresas privadas. Espera-se que a adesão seja rápida e significativa, a tal ponto que, em 20 anos, o patrimônio do Funpresp alcance R$ 160 bilhões, tornando-o um dos mais ricos fundos de pensão do país – e, desde já, um dos mais cobiçados tesouros da República.
O governo Dilma parece ciente do rigor necessário ao nomear os dirigentes que decidirão como investir (tanto) dinheiro dos servidores públicos. Disse a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, em outubro: “Para nós, o Funpresp é uma questão muito séria. As pessoas estão sendo escolhidas a dedo”. Em 17 de dezembro, saíram no Diário Oficial as nomeações dos diretores do Funpresp, e os critérios do dedo do governo ficaram claros. Para a diretoria de investimentos, a mais estratégica, na qual se definirá como aplicar o dinheiro dos servidores, escolheu-se o economista Humberto Pires Grault Vianna de Lima, ligado ao PT. Pires é gerente de participações da Funcef, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal. Fez uma rica carreira nos fundos de pensão das estatais, sempre indicado por próceres do PT – como os sindicalistas Wagner Pinheiro, presidente dos Correios e ex-presidente da Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, e João Vaccari Neto, tesoureiro nacional do partido e histórico arrecadador de dinheiro para candidatos petistas.
IstoÉ
O maestro da oposição
Escondido por correligionários nas últimas três eleições ao Palácio do Planalto, Fernando Henrique Cardoso costuma comparar os ex-presidentes da República, como ele, a vasos chineses: valiosos e bonitos, mas ninguém sabe ao certo qual utilidade lhes dar e onde os guardar. Agora, tanto ele como o PSDB encontraram uma função à altura de quem comandou os destinos do Brasil por oito anos e colocou o País no trilho da estabilidade econômica. FHC retomou a condição de protagonista do jogo político e mostra que pode ser muito útil para o projeto eleitoral da oposição. Atuando como um maestro, articula com dirigentes tucanos, soluciona pendências com outros partidos e convoca antigos auxiliares para colaborar com a criação de um extenso programa de governo. A interlocutores, tem dito que os tucanos não podem repetir o antigo erro de centrar esforços apenas na tentativa de desconstruir o PT. Para alcançar a vitória nas urnas, será necessário, segundo o ex-presidente, oferecer um novo horizonte aos eleitores e apresentar propostas de mudanças administrativas mais condizentes com o momento atual. As articulações capitaneadas por ele servirão para pavimentar a candidatura à Presidência da República em 2014 do senador mineiro Aécio Neves, hoje o principal nome da sigla para a disputa. Mas, enquanto a candidatura não é oficializada, o objetivo é reorganizar a legenda e seus aliados para que cheguem fortalecidos à próxima eleição.
Na semana passada, Fernando Henrique Cardoso entrou em cena para tentar debelar a ameaça do DEM de se aliar a outro partido, que não o PSDB, no próximo pleito. Parceiro histórico dos tucanos, o Democratas flerta com o PSB, legenda presidida pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Para que o namoro com os socialistas não vire casamento, o ex-presidente marcou conversas com dirigentes e acionou seu principal interlocutor na agremiação aliada: o prefeito de Salvador, ACM Neto. “Não podemos deixar o DEM fora da nossa aliança”, tem repetido. Num outro canal de diálogo, o ex-presidente atua arduamente para aglutinar o próprio PSDB. Nos últimos dias, interlocutores do ex-governador de São Paulo José Serra disseminaram a notícia de que ele estaria de malas prontas para deixar o tucanato, caso seu nome não fosse considerado para a disputa presidencial. FHC já manifestou publicamente a preferência por Aécio, mas trabalha internamente para impedir a saída de Serra e, consequentemente, de seu grupo político. Uma das soluções encontradas foi oferecer mais espaço dentro da legenda como compensação. Até o fim de 2012, por exemplo, o senador Cássio Cunha Lima estava confirmado para assumir a liderança do PSDB no Senado. Atualmente, FHC sugere o nome de Aloysio Nunes Ferreira, serrista de primeira hora, para a função.
CartaCapital
Guinada à italiana
Por Mino Carta
A hipótese de que o centro-esquerda venha a governar a Itália sem precisar de alianças parlamentares parece neste momento, ao faltarem cerca de 40 dias para as eleições políticas, um tanto arriscada, mas não pode ser descartada. Como se daria esta situação, inédita ao longo de toda a Segunda República? Caso o Partido Democrático de Pierluigi Bersani e a esquerda de Nichi Vendola, juntos conseguissem 40% dos votos, o que lhes garantiria o chamado “prêmio de maioria” previsto pela atual lei eleitoral.
Definida como porcellum, o porco, segundo seu próprio criador, o leghista Roberto Calderoli, que a serviu de bandeja ao então premier Silvio Berlusconi, confere aos chefões partidários o poder de, concluído o pleito, escolherem seus deputados e senadores. Trata-se, de certa forma, de uma eleição indireta dentro da direta. Ainda assim, o porcellum estabelece o tal “prêmio”, de sorte a entregar ao vencedor, por dois quintos dos votos, ou mais, a oportunidade de governar com maioria absoluta.
O Parlamento que, depois da queda de Berlusconi provocada pela manobra magistral do presidente da República Giorgio Napolitano, sustentou o “governo técnico” de Mario Monti até dezembro passado, não logrou, ou não quis, enterrar o porco, conquanto o assunto estivesse em pauta. E o único partido que se dispôs a enfrentar o suíno debochado foi o PD, com a participação da esquerda vendoliana, ao convocar em duas etapas prévias para a escolha preliminar dos candidatos, a primeiro-ministro e a deputados e senadores. Ambas as iniciativas foram bem-sucedidas além das expectativas. A primeira, que consagrou Bersani, teve mais de 3 milhões de eleitores, a segunda mais de 1 milhão.
O líder do PD, nascido da aliança entre ex-comunistas e ex-democrata-cristãos de esquerda como se tivessem sido unidos pelo legado do compromesso storico deixado por Aldo Moro e Enrico Berlinguer, é uma das três personagens mais vistosas deste enredo e certamente a mais forte. Assim como Mario Monti é a mais contraditória e Silvio Berlusconi a mais tragicômica.
Ao tomar posse há mais de um ano no comando do chamado governo técnico, Monti, recém-nomeado senador vitalício pelo presidente Napolitano, declarou que não se deixaria picar pela mosca azul do poder e que, cumprida a tarefa, não pretenderia manter-se no cargo a reboque do partido disposto a lhe compartilhar as ideias. Ao cabo, esqueceu a promessa com a impávida solenidade a lhe caracterizar a fala e os gestos. O professor da Universidade Bocconi de Milão porta-se sempre como tal.
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