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Baú de um Repórter

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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Geral, Política

Destaque das revistas

IstoÉ

Na cama do presidente

Mimi Alford é uma senhora americana de 69 anos e sete netos. Acaba de lançar o seu primeiro livro no qual se lê em um de seus trechos: “Notei que ele se aproximava cada vez mais. Podia sentir a sua respiração no meu pescoço (…)
Ele estava bem na minha frente (…) colocou suas mãos nos meus ombros e me guiou em direção à beira da cama. Lentamente, desabotoou a parte de cima de meu vestido (…) ele pressentiu que era a minha primeira vez (…).” A escrita segue por esse caminho, e dá para o leitor imaginar por onde vai e para onde vai. Há, no entanto, uma dobra no lençol da história que põe a nu o motivo do sucesso que o livro vem fazendo junto ao público e à crítica de todos os EUA. Mimi não é uma autora que descobriu, somente agora, septuagenária, o seu talento para a ficção erótica, nem se trata de uma velhinha assanhada. Ela é o arquivo, em primeira pessoa, daquilo que até recentemente era o mais enterrado segredo de alcova do ex-presidente americano John Kennedy, assassinado em 1963 aos 46 anos. Durante 18 meses ela foi amante do presidente, e na maioria das vezes ele se relacionou sexualmente com ela, durante o dia, sob os lençóis que na noite anterior dividira com a então primeira-dama Jáckie Kennedy. Detalhe da obra: “o presidente nunca beijou na boca”.

O livro se chama “Era uma Vez um Segredo – Meu Caso com o Presidente John F. Kennedy” (no Brasil, editora Objetiva).
Mimi conta que tinha 19 anos e era virgem quando se relacionou pela primeira vez com o chefe de Estado que publicamente apontava mísseis para a Baía dos Porcos e secretamente disparava seus hormônios pela Casa Branca – e dizia a seus assessores “ela dorme feito um bebê”, enquanto traçava planos bélicos ou de paz. Nessa época Mimi acabara de ser contratada como estagiária do Departamento de Assessoria de Imprensa da sede do governo, era inexperiente profissional e sexualmente e, no quesito beleza, não chegava aos pés de outra famosa amante do presidente, a atriz Marilyn Monroe. Mas a Casa Branca tem lá os seus mistérios, vai saber, tem sua química própria, e o certo é que Kennedy olhou para ela e daí por diante, quase todos os dias, caiu na piscina da ala residencial para relaxar. Era ele cair, e a assessora “foca” caía também. O primeiro mergulho começou assim: o “assessor especial para assuntos de alcova”, que, segundo a autora, se chamava Dave Powers, disse-lhe uma tarde ao pé do ouvido: “O presidente vai à piscina. Aceita lhe fazer companhia?” Sim, Mimi aceitou, era o seu quarto dia de trabalho. Nos vestiários, um detalhe chamou-lhe a atenção: a coleção de maiôs dos mais diversos tamanhos, o que a fez concluir que, não só na política mas também nas dimensões das mulheres, o presidente era sim democrata.

A água da piscina era mantida a 32 graus (prescrição médica para as dores nas costas de Kennedy), e quando eles emergiram desse mergulho de estreia ele a convidou para uma “visita guiada” pelo segundo andar da Casa Branca.
Dois daiquiris, e então veio o mergulho sem água, no quarto de Jacqueline “decorado em azul-claro”.

Kennedy gostava da água, e Mimi lembra que foi numa sessão de hidromassagem que veio à tona a porção voyeur do presidente com quem se relacionou até uma semana antes de ele ser assassinado: Kennedy ordenou-lhe que fizesse sexo oral em Powers (o alcoviteiro da piscina, lembra?) porque “ele estava um pouco tenso”. Detalhe: o presidente fez questão de ficar olhando a felação. Mimi decidiu contar agora toda a sua história porque fora citada em uma biografia de Kennedy publicada há dez anos. Não conta quanto recebeu para pôr na tela do computador e imprimir as suas memórias, mas dá para se ter uma ideia, já que um produtor de filmes lhe ofereceu US$ 1 milhão pelos direitos. “Não me arrependo de nada que fiz”, escreve Mimi. “Nosso relacionamento foi sexual.” Quando a coisa esfriou, ela decidiu se casar com um amigo do interior americano e disse adeus ao presidente, que a presenteou com dois broches de ouro e diamante, colares e um bilhete no qual dizia: “Calorosa consideração e profunda gratidão.” Tudo protocolar. Como já foi dito, o presidente não beijava na boca.

 

Época

As acusações de desvio de dinheiro contra o senador Lindbergh Farias

O plenário do Congresso Nacional estava lotado no começo da noite do dia 6 de março. Esbarrando em colegas, o senador Lindbergh Farias, do PT doRio de Janeiro, passou pelo deputado Pedro Paulo (PMDB-RJ) e, dedo em riste, falou alto: “Vou brigar com os grandes. Não tenho medo das máquinas do governo e da prefeitura”. Lindbergh tem motivos para se revoltar contra o PMDB, principal partido aliado do governoDilma Rousseff e sigla que controla a prefeitura da capital e o governo do Rio. Desde que se lançou pré-candidato a governador do Estado, no final do ano passado, Lindbergh vinha sendo alvo do “fogo amigo” do PMDB – cujo objetivo é fazer do atual vice-governador, Luiz Fernando Pezão, o sucessor de Sérgio Cabral. Agora a briga esquentou, e os golpes verbais deram lugar aos dossiês. Desta vez, os documentos divulgados não são vazios, como costuma acontecer com a maioria dos dossiês que circulam nas campanhas. A partir de material obtido com o PMDB, ÉPOCA fez seu próprio levantamento e obteve uma série de documentos com denúncias contra Lindbergh. Os papéis constam de um inquérito a que Lindbergh responde no Supremo Tribunal Federal, com acusações de corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro – relativas ao período em que foi prefeito de Nova Iguaçu, entre 2005 e 2010.

A base da investigação são dois depoimentos prestados ao Ministério Público Estadual (MPE) pela ex-chefe de gabinete da Secretaria de Finanças de Nova Iguaçu Elza Elena Barbosa Araújo. ÉPOCA obteve cópias das declarações, prestadas em fevereiro de 2007 e até aqui mantidas sob sigilo. Elza disse que, logo no início do mandato de prefeito, em 2005, Lindbergh montou um esquema de captação de propina entre empresas contratadas pelo município. O valor podia chegar a R$ 500 mil por contrato. O dinheiro sujo, segundo Elza, chegava à sala da secretaria em bolsas e maletas trazidas por empresários. Depois as quantias eram usadas, conforme ela disse, para quitar despesas pessoais de Lindbergh.

Segundo os depoimentos, o esquema ainda bancava as prestações de um apartamento da mãe de Lindbergh, Ana Maria, num edifício em Brasília. Elza relatou que numa das ocasiões, em 11 de julho de 2005, ela saiu da prefeitura com R$ 15 mil em dinheiro para pagar uma das prestações do imóvel. Sobraram R$ 4.380, que Elza disse ter depositado na conta de Lindbergh. Ela também afirmou que a propina abastecia a conta da empresa Bougainville Urbanismo, que pertence a Carlos Frederico Farias, irmão de Lindbergh que mora na Paraíba, terra natal de Lindbergh. A empresa recebeu, ainda conforme a acusação, quatro depósitos que totalizaram R$ 250 mil.

 

CartaCapital

Por Mino Carta 

A Igreja de D. Paulo Evaristo 

A rivalidade notória entre Brasil e Argentina não me emociona, embora avalie em toda a sua imponência o dissabor (digamos assim) dos torcedores nativos ao constatarem que, no confronto com a Seleção argentina, esta tem uma vitória a mais. Comparações me parecem descabidas em quaisquer outros gramados: trata-se de países profundamente diferentes, por história, formação, cultura, tradições, condições geográficas e econômicas. Não escapo a uma, contudo, a respeito do comportamento da Igreja Católica dos dois países durante suas ditaduras.

A igreja de Paulo Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider, Helder Câmara, Ivo Lorscheiter, Pedro Casaldáliga, e de outros, foi de clara e desabrida contestação ao nosso exército de ocupação a serviço da casa-grande e de Tio Sam. A igreja de padre Bergoglio foi conivente. Papa Francisco era então um jovem prelado, mas cometeu seus pecados, como se lê nesta edição no texto assinado por Eric Nepomuceno, grande conhecedor das histórias da América Latina, e da Argentina, especificamente.

Faz pouco tempo, em duas entrevistas, o ditador Videla, velho, arrogante e condenado, manifestou seu agradecimento ao apoio recebido da igreja do seu país. Era o tempo em que o Núncio Apostólico, Pio Laghi, se opunha ao almirante Massera, da trinca golpista, integrada também pelo próprio Videla e pelo brigadeiro Agosti, nas quadras de tênis do clube mais elegante de Buenos Aires. No mais, endosso total.

No Brasil, até Eugênio Salles, conservador convicto que privava da intimidade de Antonio Carlos Magalhães, protegeu perseguidos políticos. Notável, entre as figuras de batina encarnada daquele tempo, dom Paulo Evaristo. Destemido, firme, determinado. Costumava visitá-lo no seu sobrado modesto do Sumaré e o encontro era sempre de muito alento para mim, tocado por sua fala pacata, fiel à verdade dos fatos, mas capaz de inflexões esperançosas.

De fato, imaginávamos um país bem diferente do Brasil pós-ditadura, entregue a uma pretensa redemocratização até hoje bastante discutível. Recordo o cardeal arcebispo de São Paulo, que oficiou o culto ecumênico na Sé, no sétimo dia da morte de Vlado Herzog, e me chamou à sacristia para me apresentar a Helder Câmara, lá estava ele à espera da função, ao lado do rabino Sobel e do pastor Wright, os outros dois oficiantes.

O desafio à ditadura é fato indelével, envolveu milhares de pessoas dispostas a alcançar a catedral, apesar da tentativa da Polícia Militar de estrangular o trânsito paulistano. A Praça da Sé recebeu uma multidão imprevista. As paredes dos palácios que a cercam eram riscadas pela sombra oblíqua dos fuzis dos atiradores de elite, postados atrás de cada janela.

No livro que acabo de publicar pela Editora Record, O Brasil, dom Paulo é personagem relevante e ali relato também uma conversa que tivemos, ele já aposentado, no fim dos anos 90, “em um casarão entre árvores murmurantes”, na periferia de São Paulo. E conto: “Falamos do passado, ele guarda uma boa lembrança do general Golbery que lhe levou uma lista de sumidos nas mãos de algozes do terror de Estado, e o chefe da Casa Civil de Geisel chorou”. De verdade, ele fez três visitas ao Mago Merlin do Planalto, todas com o mesmo propósito.

E mais: “De improviso, põe-se a imitar o papa João Paulo II, descreve-o quando da sua última visita a Roma, curva-se e projeta a cabeça como se, eliminado o pescoço, saísse diretamente do meio do peito, e dali extrai a voz do polaco na tonalidade e no ritmo precisos, arrastada, manquitolante e imperativa. Papa Wojtyla, pontífice estadista dos crentes da religião como garantia de um jogo que, intacto e permanentemente igual a dogma, mantém as coisas como estão, inalteradas. O papa da reação e do inextinguível fingimento, de inegável grandeza do mal, perdão, do Mal, ao se apresentar, sem admitir a dúvida da plateia, como representante do Bem”.

Paulo Evaristo, e alguns ainda, personagem de outra e admirável têmpera, em relação aos colegas argentinos.

P.S.: Reflexão de encerramento

Quando Ratzinger renunciou, a mídia nativa criticou asperamente a presidenta Dilma,
ré por não ter emitido nota oficial a respeito, tanto mais grave o pecado porque o Brasil é o maior país católico do mundo.

Agora a presidenta vai a Roma, e a mídia investiga febrilmente a respeito dos gastos da sua comitiva. Tudo bem, tudo muito bem, estamos no Brazil, zil, zil.

E haja isenção de um lado, do outro resignação. Sinais inequívocos da tradicional geleia geral.

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