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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
IstoÉ
Por que o Brasil precisa importar médicos
No início do ano, uma pesquisa do Ipea realizada com 2.773 frequentadores do SUS, o Sistema Único de Saúde, indicou que o principal problema de 58% dos brasileiros que procuram atendimento na rede pública é a falta de médicos. Num País com cerca de 400 mil médicos formados, no qual pouco mais de 300 mil exercem a profissão, nada menos que 700 municípios – ou 15% do total – não possuem um único profissional de saúde. Em outros 1,9 mil municípios, 3 mil candidatos a paciente disputam a atenção estatística de menos de um médico por pessoa – imagine por 30 segundos como pode ser a consulta dessas pessoas. Na segunda-feira 8, no Palácio do Planalto, a presidenta Dilma Rousseff assinará uma medida provisória e três editais para tentar dar um basta a essa situação dramática em que está envolta a saúde pública do País. Trata-se da criação do programa Mais Hospitais, Mais Médicos. Embora inclua ampliação de bolsas de estudo para recém-formados e mudanças na prioridade para cursos de especialização, com foco nas necessidades próprias da população menos assistida, o ponto forte do programa envolve uma decisão política drástica – a de trazer milhares de médicos estrangeiros, da Espanha, de Portugal e de Cuba, para preencher 9,5 mil vagas em aberto nas regiões mais pobres do País.
Na última semana, IstoÉ teve acesso aos bastidores do plano que pode revolucionar o SUS. Numa medida destinada a responder aos protestos que entidades médicas organizaram nas últimas semanas pelo País, o governo decidiu organizar a entrada dos médicos estrangeiros em duas etapas. Numa primeira fase, irá reservar as vagas disponíveis para médicos brasileiros. Numa segunda fase, irá oferecer os postos remanescentes a estrangeiros interessados. Conforme apurou IstoÉ, universidades e centros de pesquisa serão chamados a auxiliar no exame e na integração dos médicos de fora. Não é só. Numa operação guardada em absoluto sigilo, o Ministério da Defesa também foi acionado para elaborar um plano de deslocamento e apoio aos profissionais – estrangeiros ou não – que irão trabalhar na Amazônia e outros pontos remotos do País, onde as instalações militares costumam funcionar como único ponto de referência do Estado brasileiro – inclusive para questões de saúde. O apoio militar prevê ainda um período de treinamento básico de selva com 24 dias de duração.
Uma primeira experiência, ocorrida no início do ano, é ilustrativa do que deve acontecer. Em busca de médicos para 13 mil postos abertos em pontos remotos de 2,9 mil prefeituras do país, mas reservados exclusivamente a brasileiros, o Ministério da Saúde mal conseguiu preencher 3 mil vagas, ainda que oferecesse uma remuneração relativamente convidativa para recém-formados, no valor R$ 8 mil mensais, o equivalente a um profissional de desempenho regular em estágio médio da carreira. Essa dificuldade se explica por várias razões. Poucas pessoas nascidas e criadas nos bairros de classe média das grandes cidades do País, origem de boa parte dos médicos brasileiros, têm disposição de abandonar amigos, família e todo um ambiente cultural para se embrenhar numa região desconhecida e inóspita. Isso vale não só para médicos, engenheiros, advogados, mas também para jornalistas.
O motivo essencial, contudo, reside numa regra econômica que regula boa parte da atividade humana, inclusive aquela que define chances e oportunidades para profissionais de saúde – a lei da oferta e a procura. Em função da elevação da renda da população e também de uma demografia que transformou o envelhecimento numa realidade urgente, nos últimos dez anos assistiu-se a uma evolução curiosa no universo da saúde brasileira. Formou-se a demanda por 146 mil novos médicos, no Brasil inteiro, mas nossas universidades só conseguiram produzir dois terços dessa quantia, deixando um déficit de 54 mil doutores ao fim de uma década. Num sintoma desse processo, os vencimentos dos médicos brasileiros ocupam, hoje, o primeiro lugar na remuneração de profissionais liberais, superando engenheiros e mesmo advogados.
Época
O novo ativista digital
O paulista Renan Fernandes, de 22 anos, é um observador atento da conjuntura política e social do país. Participa das discussões no centro acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde cursa o 5° ano. Ele dá aulas voluntariamente no cursinho pré-vestibular para estudantes carentes que funciona na faculdade. No dia 13 de junho, quando 5 mil manifestantes protestavam nas ruas do centro de São Paulo, ele era um deles. “Sou usuário do transporte público e queria ajudar a lutar por uma tarifa mais justa”, afirma Fernandes. Ele diz ter sido atingido por uma bala de borracha disparada pelos policiais, afirma que viu uma amiga ser ferida pelos projéteis e outra queimar as mãos, depois de ser atingida por uma bomba de gás lacrimogêneo. Revoltado, organizou um abaixo-assinado na internet para protestar contra a ação violenta da polícia. Em menos de uma hora, o texto ganhou quase 1.000 assinaturas. Hoje, está com quase 6 mil. Se chegar à marca dos 7.500, Fernandes promete entregar o documento ao governador do Estado, Geraldo Alckmin. Fernandes diz que, mesmo que os policiais não sejam punidos, o importante é protestar. “Quero espalhar informação e conscientizar as pessoas”, afirma.
Os milhares de manifestantes que ganharam as ruas do Brasil nas últimas semanas são parecidos com Fernandes. São jovens que descobriram na internet uma ferramenta poderosa para lançar e organizar protestos: contra a má qualidade dos serviços públicos, contra a corrupção, contra a violência da polícia e, sobretudo, contra tudo o que eles consideram abaixo de suas elevadas expectativas em relação à situação econômica e social do Brasil. “A situação do país não piorou. Foi a exigência que aumentou”, diz o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da Universidade de São Paulo (USP). “A agenda da carência cede lugar à da cobrança.”
Os jovens se tornaram mais exigentes por dois motivos. Primeiro, porque aumentou o nível de escolaridade. Eles estão mais instruídos. Segundo dados do Inpe, o instituto de pesquisas do Ministério da Educação, entre os jovens de 18 e 24 anos, aqueles que cursavam o nível superior passaram de 15%, em 2002, para 29,9%, em 2011. Quem estuda mais entende melhor e tende a ser mais crítico. O segundo motivo é a crise econômica. O crescimento brasileiro, que chegou a ser de 7% ao ano, caiu para menos de 1% no ano passado, arrastando com ele a possibilidade de melhoria rápida no padrão de vida dos brasileiros, sobretudo os mais jovens. O país não conseguiu cumprir a expectativa de realização pessoal criada entre os jovens urbanos. O desemprego entre os 18 e os 24 anos foi de 12,4% em maio passado – o triplo da taxa registrada entre trabalhadores mais velhos. “A situação econômica não está dramática. Países na Europa estão em situações muito mais graves. Mas as mudanças, por menores que sejam, mexem com expectativas. Expectativas são importantes”, diz Rolf Rauschenbach, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da USP. “Muitas pessoas estão felizes, mas, quando a situação aperta, todo mundo se frustra. Tanto quem tem três carros quanto o pobre, que não tem expectativa de dinamismo para mudar sua vida.”
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. As causas da insatisfação juvenil no país são compartilhadas por milhões de jovens em outros lugares do mundo, com consequências semelhantes. (…)
Veja
Os interesses dos partidos que travam a reforma política
O plebiscito oportunista proposto pelo governo para realizar a reforma política neste ano dificilmente sobreviverá. O que pouco se discute, porém, em relação a essa tentativa rasteira do PT e do Palácio do Planalto, é que projetos para mudar o modelo eleitoral brasileiro estão parados no Congresso há anos. A dificuldade em fazer o tema avançar no Legislativo vai além da inoperância dos articuladores políticos de Dilma Rousseff: os principais partidos do país têm posições (e interesses) distintos na reforma política.
Não é exagero afirmar que cada partido tem sua própria versão da reforma política ideal. O PT, por exemplo, que detém a maior bancada de deputados federais do país, insiste na ideia bolivariana de convocar uma Constituinte exclusiva para tratar do assunto e tentar mudar as regras eleitorais já em 2014 – ainda que isso atropele princípios constitucionais. Nesse caso, a manobra visa aprovar antigos sonhos da sigla, como o financiamento público de campanha e a institucionalização do voto de cabresto (voto em lista fechada).
“Nunca houve um debate no Brasil sobre os pontos da reforma política. Agora vai ser no convencimento. A população há de ser convencida da tese de cada partido, mas essa mesma população, a rigor, não domina com profundidade cada um dos temas da reforma política”, admite o líder do PT no Senado, Wellington Dias (PT-PI). “O PT não quer ficar isolado e já estamos debatendo nossas ideias com outros partidos”, completa.
O PMDB, a segunda maior bancada na Câmara, tem outras pretensões. Com capilaridade nos rincões do país, a legenda que mais elegeu prefeitos em 2012 – foram 1.024 prefeituras das 5.568 disputadas – defende a adoção do chamado “distritão”, sistema que promoveria a eleição dos candidatos a deputado mais votados em seus estados, independentemente das siglas pelas quais concorreram. O modelo, entretanto, tem o grave risco de institucionalizar o “sistema eleitoral Tiririca” – deputado que, por ter obtido cerca de 1,3 milhão de votos, acabou elegendo também outros parlamentares.
O “distritão” substituiria o sistema proporcional com coligação, que leva em conta o quociente eleitoral (divisão do número de votos pelo número de vagas do estado na Câmara), e poderia provocar no Congresso a ascensão de diversos “Tiriricas” ou puxadores de voto que não necessariamente tenham afinidade ou interesse em um mandato político.
O “distritão” favorece os grandes partidos, que têm boa inserção nos grotões e são conhecidos até pelo eleitor menos politizado. Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) aponta que, com base nas eleições proporcionais para a Câmara dos Deputados em 2010, PT, PMDB, PP e DEM poderiam ter bancadas maiores do que as que conseguiram eleger se a regra do “distritão” já estivesse em vigor.
Com uma crise deflagrada em sua base no Congresso, tudo indica que a presidente Dilma Rousseff dificilmente conseguirá salvar seu plebiscito improvisado para mudar as regras do jogo em 2014. Mas o debate sobre a necessidade de uma reforma política no Brasil seguirá em pauta, legislatura após legislatura. “O governo está completamente amador nas discussões sobre reforma política”, avalia o líder do PSB no Senado, Rodrigo Rollemberg (PSB-DF). “Precisamos dar uma resposta concreta e real para a sociedade, e não uma resposta com uma consulta popular feita às pressas”, diz o líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (PTB-GO).
CartaCapital
Dilma, abre os olhos
Por Mino Carta
A presidenta Dilma cai na preferência popular e, segundo a última pesquisa Datafolha, hoje não se reelegeria no primeiro turno. Consequência da onda de protestos que rolou nas ruas do País? Certo é que a pesquisa em questão foi realizada enquanto os movimentos galopavam.
Na segunda-feira 1º de julho, no decorrer de uma reunião do governo, a presidenta anunciou a decisão de manter contato mais estreito com a mídia por meio de entrevistas coletivas. Reação compreensível, medida acertada. Tal é a forma correta de fazer conhecer realizações e propósitos governistas e de aprofundar a compreensão da personalidade presidencial. Dilma se expõe e se habilita a ganhar com isso.
Nada pior, pelo contrário, do que entrevistas de ministros nas páginas deste ou daquele jornalão ou revistão, ou pelos vídeos de nossa medíocre televisão. Exemplar, deste ponto de vista, o súbito comparecimento do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, nas páginas amarelas de Veja, para endossar as próprias teses da revista, defensora de uma pretensa liberdade de imprensa de fato jamais ameaçada. Faço questão de sublinhar mais uma vez: “Temos de acabar – disse o ministro – com a obsessão do PT de censurar a mídia”.
Volto ao assunto porque nem mesmo o PT reagiu à flechada ministerial. Enquanto isso, em entrevista ao blog de Luiz Carlos Azenha, valente e raro praticante do jornalismo honesto, Helena Chagas, ministra-chefe da Secom, faz uma confusa alusão aCartaCapital, sem ficar claro se alguém lamentaria a publicidade do governo dada, ou não dada, a esta publicação. De todo modo, a senhora Chagas insiste em acentuar que são os critérios técnicos a orientar a distribuição dessa publicidade. Fundamental é a audiência, afirma, para que o anúncio governista atinja o maior número possível de cidadãos. Já escrevi em outras ocasiões, e repito: se The Economist fosse brasileira, ficaria com um quinto da publicidade de Veja. Às vezes, ouso insinuar, a qualidade jornalística pesa mais que a quantidade de informações distorcidas. Ou de mentiras.
Pergunto aos meus desalentados botões: adianta falar das realizações do governo nos anúncios que sustentam quem diuturnamente ofende e denigre o anunciante? Embora inimigos do óbvio, bem como desalentados, não deixam de responder que teríamos, no mesmo espaço e ao mesmo tempo, tese e antítese, a afirmação do governo e seu pronto e feroz desmentido, a peremptória e agressiva negação de quanto afirma o anúncio governista. Seria interessante, em todo caso, avaliar até que ponto a mídia nativa influenciou as manifestações recentes. Observadores e altamente confiáveis me dizem que, passado o momento da revolta da periferia precipitada pelo aumento das passagens de ônibus, as passeatas contaram com a presença majoritária de representantes da chamada classe média. Sim, estes leem a imprensa e ligam na Globo.
Já se justificou afirmar que, a despeito do empenho concentrado e maciço da mídia nativa no sentido de dificultar a vida da presidenta e do seu partido, Dilma ganharia com folga no primeiro turno do pleito de 2014. Patético soava o esforço midiático, embora o alvo da agressão, com generosidade samaritana, sempre se prontificasse a abastecer regiamente os cofres desta que é o verdadeiro partido de oposição. A perspectiva mudou. É a enxurrada do leite derramado.
Há quem diga que as passeatas de junho oxigenam a política brasileira. A verificar como e por quê. Por ora, quem está em dificuldade são os franco favoritos de escassos meses atrás, ou dias até.
Me parece que as pessoas não estão com boa vontade para entender a reivindicação da Categoria Médica. Ou por não prestarem atenção à nossa pauta, ou por outro motivo qualquer. O que se questiona é a dispensa do REVALIDA, a mesma prova de avaliação a que todos os Médicos estão sendo submetidos, atualmente. Só isto. Sabe por que? Porque, na última avaliação, cerca de 10 % dos estrangeiros, apenas, foram aprovados. E cerca de 40% desses, eram brasileiros que graduaram-se nessas universidades ibero-americanas. E o Governo Federal quer, mais uma vez, desmoralizar a Constituição Brasileira, ao dispensar esses Colegas do dito exame. Outra coisa, os Colegas vão ser jogados em Unidades de Saúde Obsoletas, desequipadas e desabastecidas. Que tipo de assistência o Governo Federal quer dar ao povo brasileiro? Sim, porque não tem um só político ou familiar que faça uso do S.U.S. Se fizessem não concordariam com este absurdo, mais este absurdo BURROCRÁTICO do governo federal, do ministério da saúde, dos governos estaduais e municipais, dos legisladores e de todas essas pessoas que querem que os usuários do S.U.S. Sejam submetidos a mais este constrangimento.