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Baú de um Repórter

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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Geral, Política

Destaque das revistas

Época

Paulo Bernardo: “É um escândalo de proporções globais”

Durante uma hora de conversa, na sala de reuniões do 8º  andar do prédio do Ministério das Comunicações, nenhum telefone celular foi acionado. O fato reduz um pouco as chances de que a entrevista concedida a ÉPOCA pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tenha sido espionada. Ele acha “desalentador” para a diplomacia internacional que agências de espionagem sejam linha auxiliar em negociações. Segundo ele, manter alguns dados em segredo faz parte do jogo diplomático. “Fazer espionagem do campo parceiro, do campo que está negociando, pode configurar até uma forma de fraudar a negociação”, diz Paulo Bernardo. Leia a seguir trecho da entrevista com o ministro:

ÉPOCA – ÉPOCA revelou que a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA, em inglês) espionou oito membros do Conselho de Segurança da ONU, no caso das sanções contra o Irã, em 2010. O Brasil pode se defender de invasões assim?

Paulo Bernardo – Estamos diante de um escândalo de proporções globais. Esse episódio que vocês mostraram é desalentador para a diplomacia internacional. Imagino que, numa negociação diplomática, ninguém é obrigado a dizer tudo o que tem conhecimento. Faz parte do jogo. Fazer espionagem do campo parceiro, do campo que está negociando, pode configurar até uma forma de fraudar a negociação. Se, por um motivo como esse, você pode fazer monitoramento, provavelmente faz em todos os fóruns, na OMC (Organização Mundial do Comércio), em qualquer outro fórum. Estamos tentando entender todas as dimensões desse problema. E, mais que isso, acho que a opinião pública mundial, a Europa, mesmo os Estados Unidos, questionam esses métodos, porque o alcance é muito além do que qualquer cidadão acha razoável dar de mandato a seu governo.

ÉPOCA – O governo americano afirma que coleta apenas dados gerais, conhecidos como metadados. Mas, no documento obtido por ÉPOCA, a então embaixadora americana na ONU, Susan Rice, se refere ao modo como os parceiros do Conselho de Segurança pensavam. O senhor acredita que eles coletem apenas metadados?

Paulo Bernardo – Acho que o caso reportado por ÉPOCA não tem nada ou tem pouco a ver com metadados. Se você quer vigiar uma delegação, vai vigiar se um ligou para o outro? Não precisa vigiar isso. Todas as evidências indicam que fizeram escuta mesmo das conversas.

ÉPOCA – Recentemente, o embaixador dos Estados Unidos, Thomas Shannon, disse que a NSA tem acesso apenas a metadados de internet e telefonia do Brasil. O senhor acredita nisso?

Paulo Bernardo – O embaixador esteve aqui, trouxe um pequeno relato do que é a posição dos Estados Unidos. Para ser justo, ele relatou que trouxe uma posição depois de consultar o Departamento de Estado. Depois disso, várias outras coisas foram divulgadas. É possível que hoje eles tenham outros elementos. Acho absolutamente normal um procedimento como esse. Estamos tratando de segurança nacional, de defesa; os americanos são muito ciosos do conceito de defesa. Mas nossa visão é que a coleta de dados, o monitoramento, se refere a mais do que metadados. Hoje, os jornais trazem notícias de que eles têm um software que permite acessar informações, inclusive conteúdo de e-mails, em todo o mundo.

ÉPOCA – O governo americano foi acusado de monitorar comunicações por internet e por telefone no Brasil. O governo já sabe como isso pode ser feito tecnicamente?

Paulo Bernardo – Aparentemente, o modelo mais usado é coletar grandes quantidades de informações por meio do acesso aos datacenters de empresas como Google, Facebook, Microsoft, Yahoo, várias outras. Você coleta esses dados e põe mecanismos de busca para identificar coisas que interessem à atividade de segurança. Mas, a partir do momento em que você faz esse tipo de monitoramento, pode fazer qualquer outro: para guerra industrial, comercial, espionagem. Nos Estados Unidos, isso tem uma base legal.

 

IstoÉ

O PT contra Dilma

Traduzido para o universo político, o conhecido ditado “em casa onde falta pão todo mundo briga e ninguém tem razão” aplica-se perfeitamente às relações atuais entre a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Escalpelados pelos protestos de junho, que jogaram no lixo a perspectiva de uma reeleição fácil em outubro do ano que vem, o governo e o PT alimentam um cotidiano de desconfianças, ameaças, jogo duplo e críticas amargas.

Por trás de gestos de boas maneiras e cortesia formal, o Palácio do Planalto tem sido assombrado, nos últimos dias, por um velho fantasma petista. Prefeita de São Paulo entre 1989 e 1993, a atual deputada Luiza Erundina (PSB-SP) entrou para os anais petistas como símbolo de autoridade desgastada e incompreendida pelo próprio partido, a quem hoje acusa de ter sabotado seus esforços para firmar um perfil duradouro a sua gestão, inclusive com a criação da passagem gratuita para ônibus, que teria tanta importância nos protestos de duas décadas depois. No Planalto, teme-se que isso ocorra também com Dilma.

Há duas semanas, convencida de que os petistas queriam colocar “uma faca em seu pescoço” e forçar mudanças de rumo na política econômica e na estratégia eleitoral de 2014, a começar pela aliança com o PMDB, a presidenta Dilma cancelou, na última hora, sua presença num encontro do Diretório Nacional petista, instância máxima de decisão do partido. A ausência provocou uma reação imediata, que incluiu um discurso indignado do ex-ministro José Dirceu e uma inesperada cena de choro por parte de Sebastião Rocha Filho, um dos mais antigos e influentes dirigentes do partido. Cinco dias depois, Dilma repetiu a atitude. Não compareceu a um encontro marcado previamente com a bancada do PT no Senado, instituição que se transformou numa fortaleza de resistência, depois que a Câmara foi capturada pela oposição. A presidenta alegou, o que era verdade, que estava gripada e com forte dor de garganta. Em vez de remarcar um novo encontro para uma ocasião em que estivesse restabelecida, Dilma despachou as ministras Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, de Relações Institucionais, em seu lugar. Levados a debater seus pleitos num diálogo no qual todas as decisões estão sujeitas a referendo posterior da presidenta, mais uma vez os petistas sentiram-se desprestigiados e rebaixados.

Na quarta-feira 31, quando centenas de militantes e dirigentes do partido se reuniram em Brasília, o ambiente era tenso. A equipe econômica havia acabado de anunciar um corte de gastos da ordem de R$ 10 bilhões, decisão que ameaçava não só o trabalho cotidiano de vários ministérios, mas também as perspectivas eleitorais de 2014. Um dos oradores, secretário-geral de um ministério importante, comentou que o corte poderia implicar a dispensa de funcionários terceirizados – os únicos que podem ser demitidos imediatamente – e lamentou: “É um erro cortar rompendo pontes com a sociedade, botar gente na rua perto da eleição.” Em palavras que traduzem o espírito geral dos descontentes, o mesmo funcionário disse: “No meu ministério, não vamos demitir nem mesmo um peão.”

O encontro da quarta-feira 31 tinha como pauta a nova esperança de reconciliação entre os petistas e o governo – o programa Mais Médicos – e por essa razão o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ocupou o centro das atenções. Embora tenha sido forçado pelos protestos das entidades médicas a cancelar a ideia de ampliar a formação universitária de seis para oito anos, reduzindo também a residência para um ano, o Planalto não tem dúvidas de que a proposta de levar médicos para os municípios e bairros pobres vai trazer benefícios eleitorais a Dilma. “Se nós soubermos trabalhar, o programa vai polarizar o debate de 2014. Esse é um embate político que tem a nossa cara”, disse Padilha.

 

CartaCapital

E Deus criou o gay

por Mino Carta

Em um mundo órfão de grandes lideranças, ocorre-me de súbito a figura do papa Francisco. Tem jeito para exceção. CartaCapital já o definiu como renovador e reformador. A se confirmar a rota tomada neste começo de pontificado, logo nos defrontaremos com um estadista.

Sou católico não praticante desde os meus 11 anos de idade, após ter desempenhado com competência, faço questão de sublinhar, a complexa tarefa de coroinha em missas faladas em latim na Igreja de San Rocco, em San Remo, a serviço de Don Borfiga, o pároco, santo homem no altar do templo miúdo e gracioso no alto de uma subida íngreme. Eu vestia uma batina vermelha e um roquete saído da agulha de crochê da minha avó materna, e pisava degraus de mármore com leveza bailarina ao transferir o missal de um lado a outro. Ao cabo da função, ao ganhar a sacristia, dizia “prosit” com alguma solenidade, para enlevo do bom pároco.

Logo passaria a figurar na categoria dos agnósticos e nem por isso deixei de me aproximar de belos personagens eclesiásticos e de admirar outros a lhes conhecer a vida e a obra. O papa João XXIII, digamos, ou o cardeal Carlo Maria Martini, capaz, antes de morrer, de denunciar o atraso da Igreja Católica em relação aos temas éticos, à família, à sexualidade, à juventude.

É o pensamento de Martini que Bergoglio parece compartilhar de várias formas. A visita ao Brasil ofereceu ao papa Francisco a oportunidade de provar seu carisma e a qualidade dos seus propósitos. Ao cabo, ainda no avião que o levava de volta a Roma, deu uma entrevista especialmente reveladora aos jornalistas companheiros de viagem. Entrevista subversiva, porque subverte aquilo que soava como doutrina da Igreja e agora abre o caminho para reformas profundas.

A começar pela questão do homossexualismo. “É preciso distinguir – diz o pontífice – entre o fato de que uma pessoa é gay e o fato de que se organiza um lobby a favor. Lobby nunca é bom. Mas se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?” E sobre o banco do Vaticano, o Instituto para as Obras da Religião, tornado lavanderia mafiosa, admite não ter ainda uma solução final. Não exclui a possibilidade de fechá-lo de vez, mas, se não for assim, terá de caracterizar-se por transparência e honestidade.

O pontífice aponta erros e pecados cometidos pela Igreja, a presença de monsenhores que merecem a cadeia, a corrupção reinante em setores da Cúria, inferior moral e intelectualmente ao nível de outros tempos. Faz o elogio da misericórdia a respeito dos divorciados e lembra que os ortodoxos permitem uma segunda união matrimonial como se fosse bom exemplo. Será este um assunto no próximo outubro para a reunião com os oito cardeais chamados a compor uma espécie de conselho consultivo, também nascido de uma ideia defendida pelo cardeal Martini, colegiado de sábios para assessorar o papa. Que reconhece, assim, sua falibilidade.

Declarações deste naipe prometem uma guinada de certa forma revolucionária. Há quem enxergue em Bergoglio um ator consumado e um político astuto. Nada disso o diminui, mesmo porque é de clareza cegante a necessidade de uma mudança radical dentro da Igreja Católica, atolada em escândalos e tramoias, permitidos, quando não incentivados no caso do IOR, por João Paulo II. Os mesmos escândalos e tramoias que levaram Bento XVI a renunciar com uma insólita confissão de impotência. Bergoglio indica ter as sobras de energia e as ideias claras e corajosas de que careceu seu predecessor.

Há uma frase-chave nas pregas das falas de Francisco, “temos de nos acostumar a ser normais”, pronunciada em seguida à informação de que carrega na mesma bolsa o breviário e o barbeador, pois tem o hábito de usá-los diariamente. A entrega à normalidade significa aceitação da verdade inexorável dos fatos. Só para focalizar um fato específico: se há homos e héteros, um católico não poderá deixar de atribuí-lo à vontade do criador. Se quiserem, escrevo Criador, com “c” grande. Avisei, porém: sou agnóstico.

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