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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por João Filho, no Intercept Brasil
O cientista político Celso Rocha de Barros apontou uma obviedade que a grande imprensa tem omitido: essa não será uma eleição normal.
“Será que todo dia a gente não devia tratar do fato que tem uma superpotência que tomou a economia brasileira como refém para exigir que os brasileiros votem no candidato que elas preferem? Eu acho muito esquisito e desconfortável a gente falar dessa eleição como uma eleição normal, que está correndo sob a mais completa normalidade”, refletiu Celso.
A maior potência bélica do planeta enfiou o pescoço na democracia brasileira e já está interferindo nas eleições. O aparato de estado dos Estados Unidos tem sido usado para impulsionar a agenda política de Flávio Bolsonaro, que em troca prometeu entregar as terras raras brasileiras e muito mais.
“Será que todo dia a gente não devia tratar do fato que tem uma superpotência que tomou a economia brasileira como refém para exigir que os brasileiros votem no candidato que ela prefere? Eu acho muito esquisito e desconfortável a gente falar dessa eleição como uma eleição normal, que está correndo sob a mais completa normalidade”, refletiu Celso.
A maior potência bélica do planeta enfiou o pescoço na democracia brasileira e já está interferindo nas eleições. O aparato de estado dos Estados Unidos tem sido usado para impulsionar a agenda política de Flávio Bolsonaro, que em troca prometeu entregar as terras raras brasileiras e muito mais.
Além de impor sanções econômicas, o governo estadunidense praticou uma série de ações para favorecer a candidatura bolsonarista. Chegou até a tentar enviar para o Brasil dois oficiais para questionar as urnas eletrônicas.
Essa flagrante violação da soberania nacional tem sido tratada como um problema diplomático entre os dois países, o que é evidentemente falso. Estamos sendo intimidados pelo mesmo extremista maluco que invadiu a Venezuela, sequestrou seu presidente e roubou seu petróleo.
Inacreditavelmente, essa não parece ser a grande preocupação da imprensa brasileira. O assunto tem sido tratado de forma lateral no noticiário e nas colunas de opinião.
Normalização dos ataques à soberania nacional
Nas sabatinas do Jornal Nacional, por exemplo, a soberania nacional não foi uma questão central. Nenhum candidato até agora recebeu perguntas sobre o risco de uma intervenção estrangeira. Os jornalistas não perguntaram nem mesmo para o presidente da República. E isso se repete em outras entrevistas e sabatinas.
As eleições correm risco de sofrer uma intervenção internacional, mas isso tem sido tratado como uma questão menor, quase irrelevante. A maior parte do tempo é gasta pelos jornalistas com escândalos de corrupção, que está bem longe de ser o maior dos nossos problemas.
Lula e Renan Santos são os únicos candidatos que denunciam a sanha interventora de Donald Trump sobre as eleições. Mas, diferente do petista, que trata o tema como questão fundamental, Renan só toca no assunto para marcar posição fora do bolsonarismo e surfar na impopularidade de Donald Trump.
Além da normalização dos ataques à soberania, há também uma normalização dos ataques à democracia. Quase todos os candidatos da direita nesta eleição prometeram anistiar os golpistas condenados pelo 8 de Janeiro. É como se a tentativa de golpe de estado não estivesse fartamente comprovada.
Já tem até livro de ex-comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro dando detalhes da trama golpista, mas o negacionismo do golpe ainda é tratado como opinião legítima no debate público. Chegaremos ao pleito com mais da metade dos candidatos prometendo tirar golpista da cadeia. Assim, fica ainda mais difícil chamar as eleições de “festa da democracia”.
Relativização da ditadura militar
A direita brasileira, inclusive a que se diz não bolsonarista, não tem mais compromisso com os valores democráticos. Durante um longo período após a redemocratização, a direita brasileira repudiou o golpe de 64. Até pouco tempo, era inimaginável um candidato relativizar a ditadura.
Hoje, Romeu Zema não demonstra o menor pudor em dizer que chamar o regime militar de ditadura é uma mera “questão de interpretação”. Ronaldo Caiado também relativiza o período e se recusa a classificá-lo como ditadura. É natural que eles defendam a anistia para os golpistas de 8 de Janeiro.
O candidato do partido Missão é o único direitista que condena a ação dos golpistas, mas nem por isso é alguém com apreço pela democracia. Seu discurso é tão ou mais autoritário que o de Flávio Bolsonaro. Ele promete um “banho de sangue” para acabar com a violência e diz que não respeitará nenhuma decisão do Supremo Tribunal Federal que considere ilegal. Esse é o retrato trágico da direita brasileira.
O único não bolsonarista disponível no mercado eleitoral é um “Milei na forma e Bukele no conteúdo”, como ele mesmo admite.
Para os progressistas e democratas, essa eleição será parecida com a de 2022. A lógica plebiscitária é a mesma. De um lado, temos uma direita entreguista que quer anistiar o golpismo. Do outro, temos Lula, o único que trata a defesa da democracia e da soberania nacional como temas centrais da sua candidatura.
Assim como na eleição anterior, Lula não é apenas um candidato, mas a barreira de contenção de projetos autoritários e entreguistas. Desta vez, o risco ainda é maior, já que temos no nosso cangote a maior potência bélica e econômica do mundo, que parece disposta a mover mundos para colocar seu fantoche no poder.
Uma eleição realizada nessas condições deveria estar causando grande indignação coletiva, mas está sendo tratada na grande imprensa como mais um passeio no parque. Nem parece que ela está ameaçada por um ditador com sanha imperialista que acabou de invadir um país vizinho para roubar petróleo.
Quando a imprensa trata esse risco como uma questão diplomática e a anistia aos golpistas como uma proposta legítima, ela não está sendo neutra, mas conivente com o entreguismo e com o golpismo.
* João Filho é cientista social e jornalista. Autor do Jornalismo Wando
Foto: Reprodução/Instagram/@FlavioBolsonaro via BBC
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