Política

Finalmente, Trafigura reaparece na mira de investigadores

Está no Jornal GGN

A Operação deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta-feira (05) finalmente chegou ao centro da maior corrupção que atingiu a Petrobras: os contratos de afretamento e comercialização, dominados pelas grandes comercializadoras do planeta, como a Trafigura e a Glencore.
Trafigura, Vitol e a Glencore, teriam movimentadocerca de US$ 31 milhões em propina, entre 2009 e 2014, de acordo com os procuradores do Ministério Público Federal (MPF). Nos três últimos anos apurados, teriam sido pagos US$ 15,3 milhões pelas três companhias na compra e venda de petróleo e derivados e na operação de estoques. É pouco, dada a dimensão dos negócios.
Foram cumpridos 11 mandados de prisão preventiva, 27 buscas e apreensões, além de bloqueio de imóveis e valores considerados suspeitos. Entretanto, o caso já teve diversas reviravoltas desde que começou a ser apurado. Principalmente o que diz respeito à Trafigura e seu representante, Mariano Marcondes Ferraz (foto).
Na divulgação feita pelos grandes jornais na data de ontem, a fase da Operação foi apresentada como algo inédito: pagamentos de vantagens indevidas de contratos de asfalto, óleos combustíveis, gasóleo de vácuo e bunker, todos os sistemas fariam parte de um grande esquema criminoso que atuou até 2014. Paralisada naquele ano, a Polícia Federal não conseguiu avançar, mas também não descartou a possível “continuidade do esquema até os dias atuais, na área de trading, com diversas ramificações internacionais”.
E foi justamente nos veículos internacionais que o mesmo esquema já havia sido exposto pela imprensa, mas de outros países. No dia 5 de março, por exemplo, a Reuters anunciava que o empresário Mariano Marcondes Ferraz havia sido condenado a mais de 10 anos de prisão por subornar um ex-executivo da Petrobras para fechar contratos com ele.
“O juiz Sergio Moro considerou Ferraz culpado de pagar US $ 868.450 para o ex-diretor de refino e abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, para renovar os contratos inflacionados de preços que a Decal do Brasil tinha com a Petrobras para fornecer serviços de tancagem e ancoragem no porto de Suape, no nordeste do Brasil”, divulgava o jornal.
Só que Mariano Ferraz aparece inicialmente como lobista, representando a Trafigura e a Decal, de acordo com acusações de Delcídio do Amaral, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa. Ele teria pago propina a Costa, ex-diretor da Petrobras, em um esquema que envolvia a comercialização de combustíveis a nível internacional, conforme o GGN denunciou na época.
O caso se desmembrou e a acusação se restringiu a Mariano Ferraz como representante apenas da Decal, uma pequena empresa italiana, perto da gigante Trafigura. A Trafigura deixa de ser a principal investigada, passando o foco à Decal. Em determinado trecho da sentença de Sérgio Moro contra Ferraz, por exemplo, havia assim descrito:
“A referência à Trafigura decorre de equívoco decorrente do fato de que Mariano Marcondes Ferraz representava tanto a Decal como a Trafigura, como esclarecido por Paulo Roberto Costa em audiência”.
Mariano era um mero prestador de serviços à Decal, enquanto pertencia ao board internacional da Trafigura, depois de ter sido responsável pela montagem da maior operação de corrupção da época, a da Trafigura em Angola.
Na audiência mencionada na sentença, Moro questionou o delator Paulo Roberto Costa: “Juiz Federal: Alguns esclarecimentos do juízo aqui muito rapidamente, senhor Paulo. Senhor Paulo, quando o senhor prestou esse depoimento na polícia, o senhor não falou na Decal, o senhor falou na Trafigura. O senhor pode me esclarecer o que houve aí, um equivoco, por que essa diferença?”.
“É, na realidade, o Mariano ele representava a Trafigura e representava a Decal. Então deve ter sido algum equivoco meu, porque ele representava as duas empresas aqui no Brasil. Eu me recordo. Então, deve ter sido um equivoco, porque o contrato realmente foi assinado com a Decal, que era dona das instalações de tancagem lá na Suape. Deve ter sido um equivoco mesmo, excelência”, havia respondido Paulo Roberto Costa.
Foi aí que as acusações deixaram de recair contra a Trafigura e passaram a se concentrar contra Mariano Ferraz e a Decal. Mas, ao ser preso em 2016 por uma das fases da Lava Jato, o empresário foi liberado 10 dias após sua detenção, após o pagamento da fiança de R$ 3 milhões.
Entretanto, em especial preparado pelo GGN junto ao DCM, o perfil da Trafigura é traçado: de origem suíço-holandesa, aparece como uma das maiores comercializadoras de petróleo do mundo, faturando mais de US$ 120 bilhões ao ano, sendo listada como a 54ª maior empresa da revista Fortune. Mariano é membro do Conselho Mundial, um dos representantes a fechar acordos junto à Petrobras e com o mercado africano.
Naquela primeira sentença, a Trafigura foi protegida, saindo da lista das investigadas: “Como entender essa blindagem da Trafigura por parte da Lava Jato? Deslumbramento com um lobista internacional, frequentador do alto mundo, da mesma maneira que se deslumbraram com madames cariocas? Desinteresse pelo fato de não ter nada a declarar contra Lula? Displicência? Confirmação de que o único objetivo da Lava Jato era destruir as empresas brasileiras mais competitivas internacionalmente,  especialmente as que atuavam na África? Suborno, através da indústria da delação premiada?”, questionou o especial GGN e DCM.
Na ocaisão, a Lava ato se negou a responder aos questionamentos do GGN. Os jornais brasileiros também nao repercutiram a denúncia. Apenas a imprensa internacional entendeu a relevância do caso.  Jornalistas ingleses, suíços e holandeses entraram em contato com o GGN. Só depois que a reportagem de um deles saiu no The Guardian, a Lava Jato se manifestou. Segundo o procurador Deltan Dallagnol, o caso estava amadurecendo.
A empresa ressurge, agora, como uma das investigadas e, desta vez, Mariano não é incluído na lista de busca e apreensões ou prisões. Desde março deste ano, quando foi emitida a sentença contra o empresário, não há registros na Justiça Federal do Paraná ou no Tribunal Regional Federal da 4ª Região de que um acordo de delação premiada tenha sido fechado por Ferraz [acompanhe aqui].
Ainda assim, é de se estranhar a nova fase da Lava Jato ignorando a Decal e o representante de ambas as empresas, ou pelo menos apresentando o caso como diferente da sentença anterior, como se não formasse parte do mesmo esquema investigado.
Foto reproduzida do Jornal GGN
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