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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Economia, Política

Grupo dos EUA ligado à campanha de Flávio Bolsonaro explora terras raras na Bahia

Está no Brasil 247

Uma rede empresarial conservadora dos Estados Unidos associada a aliados da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) aparece conectada a investimentos no setor de terras raras que chegam a direitos minerários no sul da Bahia. A ligação passa pela Rockbridge Network, pelo fundo 1789 Capital, pela fabricante norte-americana Vulcan Elements e pela mineradora Energy Fuels, que adquiriu áreas entre Prado e Caravelas. As informações foram reveladas em reportagem do jornalista Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, em parceria com o canal Amado Mundo.

Segundo a apuração, o caso amplia o alcance político e econômico das discussões sobre minerais críticos no entorno de Flávio, que já havia defendido publicamente o papel do Brasil no fornecimento de terras raras aos Estados Unidos.

De acordo com levantamento feito em registros da Agência Nacional de Mineração (ANM), a Energy Fuels possui 19 processos minerários ativos em Alcobaça, Caravelas e Prado. As áreas envolvem substâncias como ilmenita, rutilo, zircão e monazita. A monazita contém elementos de terras raras usados na produção de ímãs para veículos elétricos, turbinas, celulares, computadores, satélites, drones e equipamentos militares.

A reportagem destaca que a conexão empresarial ajuda a dimensionar o interesse da Rockbridge pelas reservas brasileiras. O Amado Mundo já havia revelado que André Marinho, candidato ao governo do Rio de Janeiro e aliado de Flávio Bolsonaro, elaborou um memorando sobre a exploração de minerais críticos em um eventual governo do senador do PL. Marinho também admitiu ter discutido a instalação de uma célula da Rockbridge no Brasil.

O documento defendia o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos na criação de um “sistema de abastecimento paralelo” de minerais estratégicos, com a meta de reduzir a dependência norte-americana da China. A proposta coincide com os interesses declarados por empresas ligadas à cadeia financiada pelo braço empresarial associado à Rockbridge.

Segundo a reportagem, outro personagem dessa articulação é o empresário carioca Pedro Sang, apontado como articulador da Rockbridge no Brasil. Ele teria participado da montagem da estrutura do comitê de Flávio Bolsonaro em São Paulo, tratando de tarefas como móveis, infraestrutura e internet. Uma fonte ouvida pela apuração afirmou que Sang se apresentava no local como “Pedro da Rockbridge”.

O elo central é o 1789 Capital, fundo criado por integrantes da Rockbridge Network, grupo que reúne empresários conservadores nos Estados Unidos. Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente norte-americano Donald Trump, tornou-se sócio da gestora após a eleição presidencial de 2024 nos EUA.

Em agosto de 2025, o 1789 Capital investiu na Vulcan Elements, empresa norte-americana que fabrica ímãs de terras raras voltados sobretudo aos setores de tecnologia e defesa. A Vulcan mantém um acordo de fornecimento com a Energy Fuels, mineradora dos Estados Unidos que comprou por US$ 27,5 milhões um projeto de minerais pesados no sul da Bahia.

A Rockbridge Network foi criada em 2019 pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, e pelo empresário Chris Buskirk. O grupo reúne investidores conservadores interessados em financiar iniciativas alinhadas à agenda da direita norte-americana. Buskirk mantém relações com o bolsonarismo desde pelo menos 2019, quando participou de um jantar oferecido a Jair Bolsonaro na residência oficial do então embaixador brasileiro em Washington.

Buskirk também está entre os fundadores da 1789 Capital, ao lado de Omeed Malik e Rebekah Mercer. A empresa define sua atuação como “capitalismo patriótico” e afirma buscar financiamento para “o próximo capítulo do excepcionalismo americano”.

Após o investimento do 1789 Capital na Vulcan Elements, a empresa anunciou uma parceria de US$ 1,4 bilhão com o governo dos Estados Unidos e a ReElement Technologies. O pacote prevê empréstimo de US$ 620 milhões do Departamento de Guerra, US$ 50 milhões em incentivos do Departamento de Comércio e US$ 550 milhões em capital privado para expansão da Vulcan. O governo norte-americano também deverá receber participação acionária e direitos de aquisição de ações das empresas beneficiadas.

A proximidade entre o investimento privado e a liberação de recursos públicos provocou questionamentos nos Estados Unidos sobre possível conflito de interesses. A Vulcan, o governo norte-americano e a 1789 Capital negaram que Donald Trump Jr. tenha interferido na operação.

Poucos dias depois do investimento da 1789, a Vulcan assinou um memorando com a Energy Fuels para desenvolver uma cadeia de fornecimento de terras raras independente da China. O acordo prevê o envio inicial de óxidos de neodímio-praseodímio e disprósio, produzidos nos Estados Unidos, para testes na fábrica da Vulcan. Após a validação, as empresas pretendem negociar contratos de fornecimento de longo prazo.

O memorando não estabelece que minerais extraídos na Bahia serão vendidos diretamente à Vulcan. Ainda assim, conecta a fabricante financiada pelo grupo de Donald Trump Jr. a uma mineradora que afirma ter comprado o projeto baiano para abastecer sua cadeia produtiva nos Estados Unidos.

A Energy Fuels diz que o chamado Projeto Bahia poderá fornecer monazita durante décadas para sua unidade industrial de White Mesa, no estado norte-americano de Utah. Nessa unidade, o minério seria processado e transformado em óxidos de terras raras usados por fabricantes de ímãs como a Vulcan.

Em fevereiro de 2023, a Energy Fuels anunciou a conclusão da compra de 17 concessões minerais entre Prado e Caravelas, em uma área total de 15.089 hectares. Segundo a empresa, o projeto poderia produzir de 3 mil a 10 mil toneladas de concentrado de monazita por ano. Pelos cálculos divulgados pela própria companhia, esse volume seria suficiente para fornecer terras raras destinadas à fabricação de componentes para até 1 milhão de veículos elétricos por ano.

A apuração em registros da ANM indica que a presença da Energy Fuels na região é maior do que os 17 processos informados a investidores norte-americanos. A empresa apresentou outros dois pedidos em 2023, alcançando também o município de Alcobaça.

Nenhum dos processos consultados possui concessão de lavra, etapa necessária para autorizar a exploração comercial do minério. A companhia ainda depende de licenças e autorizações brasileiras para transformar o projeto em uma mina em operação.

Em documentos apresentados à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a Energy Fuels reconheceu como fator de risco a possibilidade de governos brasileiros adotarem medidas — ou deixarem de adotá-las — que afetem o licenciamento do empreendimento.

A dimensão política do caso ganhou força porque as movimentações empresariais coincidem com propostas e declarações de pessoas próximas à campanha de Flávio Bolsonaro. Em março, durante discurso na Conferência de Ação Política Conservadora, a CPAC, Flávio afirmou que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.

Um mês depois, o empresário Tallis Gomes afirmou integrar a Rockbridge, assessorar candidatos à Presidência e trabalhar para “vender o Brasil”. Ao tratar das terras raras, defendeu a aproximação com investidores estrangeiros. Em maio, Tallis participou de um evento em Nova York ao lado de Chris Buskirk.

O memorando elaborado por André Marinho foi mais direto. O texto previa que, em um eventual governo Flávio Bolsonaro, o Brasil se alinharia aos Estados Unidos para formar uma cadeia alternativa à chinesa e aceleraria reformas na legislação minerária e no licenciamento ambiental.

Essa é a mesma lógica apresentada pela Vulcan e pela Energy Fuels ao anunciarem a parceria. As empresas disseram que pretendiam construir uma cadeia norte-americana de ímãs de terras raras “independente da China”.

A reportagem ressalta que não há evidências de que Flávio Bolsonaro, André Marinho ou integrantes da campanha tenham participado da aquisição das áreas minerais na Bahia, concluída em 2023. Também não há, até o momento, contrato que obrigue a Energy Fuels a fornecer à Vulcan minerais provenientes do projeto brasileiro.

Os documentos, porém, indicam que a rede envolvida na formulação de propostas sobre terras raras para um eventual governo Flávio Bolsonaro possui interesses econômicos concretos no setor. Essa cadeia chega a direitos minerários no Brasil adquiridos por uma empresa que pretende usar matéria-prima baiana para abastecer a indústria estratégica dos Estados Unidos.

Foto reproduzida da Internet

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