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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Tereza Cruvinel, no Brasil 247
Insultando o presidente Lula, o Brasil e os brasileiros, Javier Milei chegou ao ponto mais vergonhoso de sua sabujice a Trump e Rubio e confirmou, mais uma vez, sua insuficiência moral e política para o cargo que ocupa.
Por isso, e por nenhuma razão de Estado, sua verborragia ultrajante causou o maior estremecimento diplomático entre as duas nações desde que, há 41 anos, os presidentes Sarney e Alfonsín firmaram, em 30 de novembro de 1985, a Declaração de Iguaçu. Por ela, Brasil e Argentina renunciaram às rivalidades do passado e firmaram uma aliança estratégica para a consolidação da democracia e o desenvolvimento recíproco, baseada na amizade, na confiança e na cooperação. Da evolução deste acordo nasceria o Mercosul.
Milei pisoteou este documento histórico com seu discurso na convenção que lançou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Nunca antes um governante estrangeiro havia pisado o solo nacional para nos ofender e insultar, tomando partido na disputa eleitoral interna.
Eu era uma jovem repórter em 1985 e cobria a Presidência da República para o jornal O Globo quando houve o encontro na fronteira entre Sarney e Alfonsín para a assinatura do documento. Suspeito hoje que sua importância não foi bem avaliada na época, inclusive por mim.
Em março daquele ano havíamos posto fim à ditadura com a posse de Sarney em lugar de Tancredo Neves. Na Argentina, a ditadura havia caído no final de 1983, com a posse de Raúl Alfonsín, após uma grave crise econômica e a derrota na Guerra das Malvinas.
A declaração conjunta abordou os mais diversos aspectos da relação bilateral que, dali para a frente, comporiam a aliança estratégica com vistas à consolidação democrática e ao desenvolvimento das duas nações: ela destacou a posição comum contra o protecionismo no comércio internacional, defendeu maior integração entre os países da América Latina para se fortalecerem nas negociações com o resto do mundo e pregou mudanças no tratamento da dívida externa dos mais pobres, com base no Consenso de Cartagena. Defendeu o Atlântico Sul como zona de paz e o reconhecimento das Malvinas como ilhas argentinas.
Uma comissão bilateral de alto nível foi criada para implementar todos os pontos. No ano seguinte, Sarney foi a Buenos Aires e ali foram assinados os acordos comerciais-aduaneiros que depois, com a adesão do Uruguai e do Paraguai, deram origem ao Mercosul.
Mas, no encontro de Iguaçu, outro documento importante foi assinado, a Declaração Conjunta sobre Política Nuclear, pela qual os dois países se comprometeram a destinar apenas a fins pacíficos seus programas nucleares. E, com isso, Brasil e Argentina renunciavam a uma corrida armamentista que já fora ensaiada e poderia ser nefasta para todo o subcontinente. Os anos passaram, outros presidentes foram eleitos aqui e lá. Nem sempre eles foram do mesmo campo ideológico ou tiveram grandes afinidades, mas a confiança recíproca continuou sendo construída.
Alguns tremores aconteceram, mas nunca um terremoto como o de agora. Houve a crise entre o presidente Itamar Franco e Carlos Menem, que acabou se desculpando por ter dito que o salário-mínimo aqui era pior que o deles, e muitas querelas comerciais sobre automóveis, eletrodomésticos e outros produtos.
Nesta segunda-feira, o chanceler Mauro Vieira reuniu-se com o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. Sua convocação pelo Itamaraty foi um sinal da profunda irritação brasileira com o governante argentino. Bitelli não tem data para voltar a Buenos Aires e, segundo fontes diplomáticas, é possível que ele nem volte, como aconteceu com o último embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer.
No domingo, Mauro Vieira recebeu o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, que prometeu levar à Casa Rosada o protesto do governo brasileiro contra as declarações que Vieira qualificou de “inaceitáveis”. Fontes diplomáticas dizem que Mauro lamentou ter que colocar em tal saia justa um colega de carreira com quem tem boa relação há mais de 30 anos. Ossos do ofício.
Vieira teria também manifestado ao colega o desejo do governo brasileiro de que seja removido do cargo o cônsul em São Paulo, Luis Kreckler. Ao acompanhar Milei à convenção, ele teria endossado os insultos ali proferidos. Kreckler é um diplomata de carreira e, como tal, não tinha a obrigação de acompanhar Milei em um compromisso pessoal e não oficial. Na diplomacia argentina, o comportamento dele foi também considerado “vergonzoso”. A bajulação pode lhe custar o posto.
Para o governo brasileiro (e creio que para a maioria dos brasileiros), o ataque de Milei e seu apoio a Bolsonarinho foi uma prestação de serviços a Donald Trump e a seu secretário de Estado, Marco Rubio, que vêm intensificando as hostilidades ao Brasil e ao governo Lula. E não apenas por razões ideológicas, mas também para conter a influência política e econômica da China na região, facilitando o acesso norte-americano às riquezas do que consideram como o quintal deles, como as terras raras.
Agora as coisas chegaram a um ponto de não retorno, pelo menos enquanto Milei e Lula forem presidentes. Desculpas já sabemos que Milei jamais terá a grandeza de pedir.
A História o responsabilizará por este desastre diplomático. Do lado de cá, Bolsonaro filho também colaborou, ao convidar Milei, implorando por sua presença numa convenção que teria passado em branco, pela falta de apoiadores de peso. O mesmo vale para o governador Tarcísio de Freitas, que condecorou Milei apenas para dar-lhe um pretexto para vir ao Brasil por conta do erário argentino.
A crise continua
Sem argumentos para justificar seus insultos, Milei usou ontem as redes sociais para espicaçar Lula, curtindo ou reproduzindo manifestações de apoiadores concordando com seus ataques a Lula. Um dos argumentos muito utilizados foi o da comparação entre o que fez Milei na convenção de Flávio Bolsonaro e a visita que Lula fez à ex-presidente Cristina Kirchner em 2025. Falsa comparação: ela estava em prisão domiciliar, mas não proibida de receber visitas. Ele não saiu do encontro fazendo discurso político ou eleitoral.
Assim, nenhuma resposta do Brasil foi mais eloquente que a dada por Lula ao telefonar para Xi Jinping em pleno domingo. Tiveram longa e amistosa conversa e nela o líder chinês expressou solidariedade ao Brasil contra qualquer interferência em sua soberania e em seu processo eleitoral. Aguenta esta, Donald Trump!
* Tereza Cruvinel é colunista e comentarista do Brasil 247, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos, sempre reconhecida como uma das mais talentosas jornalistas do Brasil
Foto: Defesa Aérea & Naval
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