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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Stella Galvão
A cidade do sol tem dessas ironias recorrentes: investe-se na contenção do avanço do mar na praia mais celebrada da cidade, corre-se com a obra, no caso a engorda de Ponta Negra, avança-se o cronograma em sintonia com o calendário eleitoral, obtém-se o aval do meio ambiente na base do grito. O resultado, o mar há uns quantos metros da larga faixa de areia, uma areia estranha à original, cheia de pedregulhos e pedaços cortantes de conchas, mas sim, aparentemente engordou a distância do reino de Netuno do calçadão, de maciça ocupação urbana. Foi bom, você gostou? Opiniões divididas entre potiguares e turistas. Quem não gosta só pode ser contra a cidade, choraminga a politicalha.
Cada chuvarada mais intensa e a coisa toda vai pro saco, ou melhor, sai dele. Como no dilúvio persistente da última sexta-feira de abril, quando a cidade ficou debaixo d’água, saltou a evidência: entre o cálculo e a realidade, há um elemento que não assina memorial descritivo: a água em movimento. Em poucas horas o trecho ampliado da orla ganhou sua versão esponetânea de espelho d`águairregular, com poças distribuídas como se tivessem sido desenhadas por alguém que não recebeu o projeto original.
A Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo correu para informar que tem 16 dissipadores da água das chuvas ao longo da praia, e que seguem funcionando. Suprema ironai dos projetos riscados a grafite de primeira linha: tudo pode estar operando dentro dos parâmetros estabelecidos, previstos, desejados, enquanto o resultado na superfície conta outra história, mais líquida e menos protocolar.
No imaginário poluar, porém, a cena ganhou outra camada. Não demorou para seguir a leitura quase bíblica, do episódio: os “Caminhos de Álvaro”, uma releitura improvisada da travessia de Moisés. Só que, em vez do Mar Vermelho se abrindo com solenidade divina, a faixa de areia se interpôs entre lagoas que ganharam incremento fétido dos esgotos, alguns deles a céu aberto, e o marzão que ganhou mais terreno nesse dia de tempo fechado, escolas idem, comércio claudicante.
Imponente e soberano só o Morro do Careca permaneceu ao fundo, como sempre, assistindo a mais um capítulo dessa convivência algo hostil entre a natureza e certos planejadores vocacionados para o humor involuntário. E, naturalmente, para o gasto. Já se fala em nova engorda. E assim, entre o projetoe a enxurrada, entre o relatório e a poça, a cidade vai acumulando sua própria mitologia urbana e seus escândalos envolvendo obras que terminam soçobrando. Literalmente.
*Stella Galvão é jornalista, cronista e colaboradora do blogdobarbosa
Ilustração reproduzida das redes sociais
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