E-book

Baú de um Repórter

O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.

Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Artigo

O mundo é bem maior e mais vasto do que o umbigo de Trump

por Laonardo Attuch, no Brasil 247

Durante décadas, parte da elite brasileira acostumou-se a olhar o mundo por uma única janela: Washington. Quase tudo era medido pela régua dos Estados Unidos. Se a economia americana espirrava, imaginava-se que o Brasil inevitavelmente pegaria uma pneumonia. Essa visão nunca correspondeu inteiramente à realidade, mas hoje ela se tornou definitivamente anacrônica. O mundo mudou. E Donald Trump parece incapaz de compreender essa mudança.

A diplomacia Sul-Sul, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Celso Amorim investem desde o primeiro mandato, está produzindo resultados que talvez nem seus maiores defensores imaginassem. O crescimento das exportações brasileiras para China e Índia, mas também para mercados maduros, como a Europa, que já supera em mais de seis vezes as perdas provocadas pelas tarifas americanas, é apenas um dos indicadores de uma transformação muito mais profunda. O Brasil deixou de depender de um único mercado e passou a dialogar com um planeta muito mais amplo.

Esse movimento não nasceu por acaso. Ele é fruto de uma estratégia consistente de política externa. Lula compreendeu, ainda nos anos 2000, que o século XXI seria marcado pela ascensão dos países em desenvolvimento. Foi por isso que fortaleceu o Mercosul, aproximou-se da África, ajudou a consolidar os BRICS e fez da cooperação entre os países do Sul Global um dos pilares da diplomacia brasileira.

Na época, muitos ironizaram essa opção. Hoje, os números respondem melhor do que qualquer discurso.

A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil e, mais importante, um mercado praticamente insubstituível para produtos brasileiros. A expansão das vendas para aquele país compensou sucessivas crises internacionais e abriu espaço para novos investimentos. O mesmo fenômeno começa a ocorrer com a Índia, cuja economia figura entre as que mais crescem no planeta. Em poucos anos, o mercado indiano deverá desempenhar um papel semelhante ao que a China desempenhou na década passada.

Ao mesmo tempo, o Sudeste Asiático desponta como uma das regiões mais promissoras do mundo. Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia e outros países da Asean ampliam rapidamente sua renda e seu consumo. A Ásia Central também surge como uma nova fronteira comercial. Cazaquistão e Uzbequistão já aparecem entre os destinos estratégicos para as exportações brasileiras. São mercados que simplesmente não existiam no radar da diplomacia tradicional.

Enquanto isso, Trump continua acreditando que os Estados Unidos podem impor sua vontade ao restante do planeta por meio de tarifas.

Nem mesmo essa estratégia funciona plenamente.

As próprias tarifas impostas pelo governo americano vieram acompanhadas de milhares de exceções. A razão é simples: uma aplicação indiscriminada elevaria o custo de inúmeros produtos consumidos pelos próprios norte-americanos. Em outras palavras, a Casa Branca precisou preservar cadeias produtivas e proteger seus consumidores dos efeitos de sua própria política comercial.

Isso desmonta parte da narrativa alarmista construída em torno das medidas adotadas por Washington.

Os prejuízos econômicos para o Brasil existem, mas são relativamente pequenos diante da capacidade de reação construída ao longo dos últimos anos. Os dados falam por si. Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram, novos mercados absorveram volumes muito maiores de produtos brasileiros.

O verdadeiro objetivo da ofensiva tarifária parece ser outro.

Mais do que atingir a economia brasileira, trata-se de uma tentativa de produzir efeitos políticos internos, pressionando o governo Lula e buscando influenciar as eleições brasileiras. É uma estratégia que parte da velha premissa de que qualquer dificuldade econômica seria suficiente para alterar o cenário político nacional.

Há um problema para quem aposta nessa tese.

O Brasil de hoje é muito diferente daquele de décadas atrás. A economia está mais diversificada. Os parceiros comerciais são muito mais numerosos. O comércio internacional deixou de girar exclusivamente em torno do Atlântico Norte. E o próprio eleitor brasileiro demonstra crescente rejeição a qualquer tentativa de interferência estrangeira na soberania nacional.

Quem resumiu esse processo histórico de maneira brilhante foi o presidente do IBGE, Marcio Pochmann.

Segundo ele, o Brasil vive a terceira grande transformação de seu comércio exterior.

A primeira ocorreu em 1808, quando a chegada da família real portuguesa rompeu o antigo sistema colonial e deslocou o eixo das relações comerciais da metrópole portuguesa para a Inglaterra.

A segunda aconteceu entre as duas guerras mundiais, quando a decadência britânica abriu espaço para a ascensão dos Estados Unidos como principal parceiro comercial brasileiro.

Agora, estamos diante da terceira grande virada.

Ela começou com o ciclo das commodities, ganhou impulso com a diversificação dos parceiros comerciais e consolidou-se após a crise financeira de 2007, quando a ascensão da China redefiniu a inserção internacional do Brasil.

Nesse contexto, a recente escalada tarifária promovida pelos Estados Unidos poderá entrar para a história como a pá de cal sobre um longo ciclo de predominância americana no comércio exterior brasileiro.

A geopolítica mudou.

O mapa do comércio mundial mudou.

Os polos de crescimento econômico mudaram.

E o Brasil está mudando junto com eles.

Isso não significa romper relações com os Estados Unidos. Seria um erro substituir uma dependência por outra ou transformar a política externa em um jogo de soma zero. Significa, isto sim, compreender que a prosperidade brasileira depende de dialogar com todos, vender para todos e construir relações equilibradas com todos.

O século XXI pertence cada vez mais ao Sul Global.

É ali que estão algumas das economias mais dinâmicas do planeta, as populações que mais crescem, os maiores investimentos em infraestrutura, as novas cadeias industriais e uma parcela crescente da inovação tecnológica.

Lula percebeu essa realidade antes de muitos líderes mundiais.

Trump, ao contrário, continua olhando para um mundo que já não existe.

A história ensina que impérios costumam confundir seu próprio horizonte com o horizonte da humanidade. É exatamente esse equívoco que parece orientar a atual política externa americana.

Mas o mundo não cabe em Washington. O comércio mundial não gira apenas em torno dos Estados Unidos. E o futuro do Brasil certamente não depende do humor de Donald Trump.

O mundo é muito maior. Muito mais vasto. E, felizmente para o Brasil, Lula e Celso Amorim enxergaram antes esta grande transformação.

Viva o Sul Global.

*Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”

Foto reproduzida da Internet

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *