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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Orlando Calheiros, no Intercept Brasil
O Brasil já está sendo invadido.
Peço perdão à leitora e ao leitor por abrir este texto de maneira tão direta e sob o risco de parecer sensacionalista. Mas não encontro outra forma de tratar um assunto tão urgente.
Primeiro, porque preciso disputar um bem cada vez mais escasso: a atenção. Segundo, porque palavras importam, sobretudo num tempo em que a própria ideia de verdade – ela também uma palavra – foi meticulosamente esvaziada de sentido.
E esse esvaziamento faz parte da invasão.
Uma invasão cujo braço mais visível e intimidador é a ameaça, cada vez menos velada, do governo dos Estados Unidos contra a já combalida democracia brasileira.
Uma ofensiva hoje encampada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, o latino recalcado, Marco Rubio. Uma ameaça que, ao contrário do que o noticiário diário parece insinuar, não tem nada de inédita.
Ela acompanha a própria história republicana do Brasil e, alinhada com os vendilhões da caserna, foi responsável por um dos capítulos mais nefastos da nossa história recente: a ditadura militar.
Não por acaso, a última vez que Washington se sentiu à vontade para ameaçar o Brasil de forma tão aberta, o presidente da República era João Goulart e o ano era, justamente, 1964.
Palavras importam.
Não se trata de diplomacia
É fundamental compreender essas atitudes pelo que elas são: ameaças. Não meros “entreveros diplomáticos e comerciais”, simples quebras de protocolo ou apenas mais um capítulo da disputa política internacional.
São ameaças reais ao Brasil.
E é preciso enxergá-las como tal porque vivemos num mundo em que o inimaginável se tornou corriqueiro. Um mundo em que normas, tratados e convenções internacionais deixaram de representar garantias absolutas. Se é que um dia já foram garantia de algo.
Um mundo em que, por exemplo, os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela e absolutamente nada aconteceu.
E que se entenda a palavra “ameaça” no tempo presente. Não estamos falando de simples avisos ou de uma pressão diplomática destinada a arrancar concessões do governo brasileiro numa imaginária mesa de negociação. Estamos falando de uma sucessão de golpes calculados para, pouco a pouco, corroer a soberania nacional.
Das declarações mentirosas de Marco Rubio às tarifas impostas ao Brasil; do decreto que classifica certas facções criminosas como organizações terroristas à revogação do visto da embaixadora brasileira. Trata-se de uma escalada de agressões cujo objetivo não é apenas enfraquecer o governo brasileiro e influenciar o resultado das eleições de outubro. O que, por si só, já ultrapassaria todas as margens do absurdo. O objetivo é maior: é reduzir o Brasil à condição de satélite dos Estados Unidos.
Instrumentalização de Milei
Foi exatamente essa lógica que se impôs à Venezuela, onde, na prática, o secretário de Estado norte-americano passou a exercer uma influência sobre a política do país que supera até a das próprias autoridades locais, como a presidenta Delcy Rodríguez.
As agressões contra o Brasil não apenas vêm se intensificando, como passaram a ser terceirizadas. Já não basta a pressão direta de Washington. Nas últimas semanas, governantes sul-americanos alinhados com Trump (e Rubio) se rebaixaram ao papel de contínuos dos interesses norte-americanos.
Ou alguém realmente acredita que seja mera coincidência que Javier Milei, presidente da Argentina, e Santiago Peña, presidente do Paraguai, terem decidido, justamente agora e em sintonia, fabricar “crises” diplomáticas com o Brasil?
O teatrinho encenado pelos estafetas da Casa Branca deixa evidente que a estratégia norte-americana vai além da pressão direta sobre o Brasil. O objetivo é cercá-lo politicamente, isolando-o no cenário sul-americano enquanto transforma os países vizinhos em clientes cada vez mais dependentes.
Uma estratégia que certamente não se encerrará com uma eventual reeleição de Lula e nem, tampouco, com a improvável eleição de Flávio Bolsonaro. Pois o objetivo dessa estratégia é mais profundo do que uma mera dominação política, ela almeja uma única coisa: a completa submissão da população brasileira. Minando qualquer capacidade de resistência aos interesses dos EUA.
Uma invasão completa. Não do território, mas das consciências.Parece exagero?
Guerra pelo imaginário brasileiro
Pois saiba que, pelo menos desde a década de 1950, o Brasil é um dos principais laboratórios de uma sofisticada estratégia de influência cultural, informacional e psicológica conduzida pela Casa Branca.
Tratava-se de um projeto ambicioso. Seu objetivo era moldar, ao longo das décadas, a própria maneira como os brasileiros interpretam a realidade, fazendo com que os interesses dos Estados Unidos parecessem naturais, desejáveis e até mesmo sagrados, enquanto toda alternativa a eles fosse percebida como suspeita, indesejável ou pecaminosa.
A guerra pelo imaginário dos brasileiros tem história.
E antes que me acusem de propagar teorias de conspiração, gostaria de lembrar que estamos falando de uma política de Estado dos Estados Unidos fartamente registrada em arquivos oficiais, memorandos diplomáticos, relatórios e documentos posteriormente desclassificados.
Uma política que, em 1953, ganhou um departamento próprio: a famigerada United States Information Agency, a USIA. Uma agência criada exclusivamente para disputar a chamada “batalha das ideias” e que só seria formalmente extinta em 1999.
O que, evidentemente, não significa que os Estados Unidos tenham abandonado essa batalha. Apenas trocaram de armas. Se antes contavam com uma agência estatal dedicada à disputa das consciências, hoje dispõem de um ecossistema de redes sociais controlado por aliados bilionários (e um trilionário) capaz de amplificar narrativas, moldar o debate público e favorecer interesses alinhados a Washington em escala global.
Não por acaso, essas plataformas desempenharam um papel decisivo na ascensão de verdadeiros contínuos da Casa Branca.
Foi assim na Argentina, com Javier Milei. Foi assim no Paraguai, com Santiago Peña. E querem que seja assim no Brasil, com Flávio Bolsonaro. Como já foi, anos atrás, com seu pai.
Percebam, leitoras e leitores, como a invasão já está em curso. Percebam como a própria opinião pública brasileira, o nosso imaginário, vem sendo, pouco a pouco, moldada para aceitar como natural, até mesmo desejável uma agenda de desmonte da soberania econômica e política do país. Que a população é estimulada a votar e apoiar políticos comprometidos com essas agendas, como a família Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição pelo governo de São Paulo pelo partido Republicanos.
É exatamente o que aconteceu na Argentina. É o que acontece no Paraguai. Não por coincidência, dois países transformados pelas redes sociais em verdadeiros paraísos capitalistas.
E apenas ali.
Percebam, leitoras e leitores, a importância de resgatarmos o sentido de certas palavras. De voltarmos a chamar ameaça de ameaça. Invasão de invasão. E, sobretudo, de recuperar a própria ideia de verdade. Porque um povo incapaz de nomear a realidade é também um povo incapaz de resistir a ela.
*Orlando Calheiros é Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalhou como Pesquisador Sênior do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), coordenando o Grupo de Trabalho Araguaia na Comissão Nacional da Verdade (CNV)
Foto reproduzida da Internet
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