E-book

Baú de um Repórter

O blog cria um novo espaço pra relembrar causos e editoriais, clique aqui para acessar o e-book.

Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Política

`Um novo governo de extrema direita vai acelerar o colapso da democracia´, alerta o cientista político André Singer

Está no Intercept Brasil

As eleições de 2026 são, novamente, uma disputa pela existência da democracia no país. O projeto autocrático de Jair Bolsonaro continua firme e forte com a escolha de Flávio Bolsonaro, do PL, para ser o candidato à Presidência da extrema direita. “Fica implícito, na candidatura do filho, a ideia de que Trump manda no mundo, e Bolsonaro, no Brasil”, escreve o cientista político André Singer em seu novo livro, “Impasse: o Brasil diante da onda reacionária” (Companhia das Letras).

Em entrevista ao Intercept Brasil, Singer disse que a democracia está “sendo solapada de maneira gradual, mas contínua”. Um novo governo de extrema direita no Brasil aceleraria muito esse processo, como está acontecendo com o segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos.

André Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP. Ele foi porta-voz e Secretário de Imprensa da Presidência durante o primeiro mandato de Lula, entre 2003 e 2007. Quando saiu do governo, Singer se dedicou a estudar o lulismo. Desde então, ele é um dos principais analistas da política brasileira.

Em seu novo livro, num misto de análise de dados eleitorais com referências a clássicos da teoria política, Singer coloca o governo de Jair Bolsonaro em relação com a ascensão global de uma nova extrema direita e a frente ampla que elegeu Lula como um movimento de alianças contraditórias em nome da democracia. Deu certo para não reeleger um golpista em 2022, mas será que vai dar certo para reeleger um democrata em 2026? O impasse está colocado.

A divisão entre os dois principais campos presentes nas últimas eleições se dá no território (Lula vence nos grandes centros urbanos, Bolsonaro no interior), nas classes sociais (mais pobres estão com Lula, classe média com Bolsonaro) e na religião (Lula tem maioria entre católicos, enquanto Bolsonaro garantiu uma base eleitoral forte entre evangélicos).

Para unir uma maioria pela democracia, a campanha de Lula em 2022 recorreu a uma aliança entre antigos adversários: figuras históricas do PSDB, antigo opositor do PT, se uniram à chapa do terceiro governo Lula, como o próprio vice-presidente Geraldo Alckmin, filiado atualmente ao PSB.

Nessa frente ampla que elegeu Lula em 2022, Singer argumenta que existem dois programas incompatíveis: austeridade versus investimento social. Grupos que antes eram opositores precisaram se unir pela democracia, mas o resultado foi uma frente relativamente paralisada: o governo Lula III conseguiu praticar um pouco de investimento social, mas não conseguiu juntar uma maioria confortável de eleitores como fez em seus primeiros mandatos.

Para o cientista político, o impasse dentro do campo democrático também precisa se resolver democraticamente. A esquerda precisa voltar a defender pautas históricas do campo, como reforma política, revisão da reforma trabalhista, autonomia para decidir seu próprio destino e controle social da política econômica para combater o neoliberalismo. Assim, no debate público, a esquerda vai ter a chance de convencer seus companheiros de democracia que essa é a melhor forma de conduzir um país.

Leia a conversa completa do Intercept Brasil com o cientista político André Singer.

Intercept Brasil – Em Impasse, você caracteriza o campo bolsonarista como “Confederação”, numa referência à Guerra Civil dos Estados Unidos. Por que você escolheu esse nome? Como esse movimento está organizado agora, antes das eleições?

André Singer – A “Confederação” foi o nome que me ocorreu quando eu percebi que tinha-se criado uma unidade territorial em torno do Bolsonaro, uma espécie de grande corredor no interior do Brasil que pega o norte do Rio Grande do Sul até o sul da região Norte, passando por regiões muito importantes do ponto de vista econômico, como o interior de São Paulo e de Minas Gerais.

Quando estudamos comportamento eleitoral, sempre falamos em tendências. Isso não quer dizer que todo mundo que mora nesse grande corredor interiorano votou no que eu estou chamando de Confederação, mas a tendência majoritária foi para ela.

O segundo motivo foi que, na eleição de 2022, eu notei pitadas de separatismo. Eu não acho que seja um movimento expressivo, nem que indique a direção de uma secessão no Brasil. Mas a palavra Confederação tem a ver com a Guerra Civil Norte-Americana [na Guerra de Secessão, os Confederados eram os estados do Sul dos Estados Unidos que defendiam a manutenção da escravidão e a separação dos estados do Norte]. No movimento brasileiro, essa não é a tendência principal, mas eu insisti em colocar esse nome porque, na eleição de 2022, eu notei uma espécie de confronto entre regiões.

Esse confronto entre regiões fica mais claro quando a gente observa que o lulismo se enraizou no Nordeste a partir da eleição de 2006. Sem essa base social, o lulismo não existiria. Há um quê de “antinordestinismo” na Confederação. A gente sente, aqui e ali, um certo preconceito.

Há um último componente na composição da Confederação, que é que a economia do interior está muito puxada pelo agronegócio, que tem sido muito próspero no Brasil. Se quisermos entender de maneira estrutural o que está acontecendo no país, e parece que isso está se reproduzindo nesta eleição de 2026, é uma unidade do interior e do agro em torno das candidaturas Bolsonaro.

No caso da frente ampla que elegeu Lula, você escolheu o nome “Concertación”. Por quê?

“Concertación” é um nome que eu trouxe da experiência chilena. Sugeri esse nome pelo seguinte motivo: no Brasil, o que eu chamo de campo popular sempre foi muito combatido pelo que eu chamo de campo da classe média, que se desdobrou em partidos diferentes. O campo popular se unificou em torno do antigo PTB, antes de 1964, e o campo de classe média se uniu em torno da UDN.

Na nossa experiência no pós-redemocratização, eu acho que isso se reproduziu no PT e no PSDB, que se transformaram nos grandes competidores do período 1994-2014 — talvez o período em que a democracia brasileira tenha funcionado melhor, olhando para todos os seus aspectos.

Com o impeachment da presidente Dilma e o processo que se seguiu a ele, o PSDB perdeu tração, porque seus eleitores se radicalizaram à direita e preferiram uma candidatura de extrema direita em 2018.

Aconteceu uma coisa surpreendente, e eu quis usar a palavra Concertación para designar isso, que é a associação entre antigos grandes adversários: figuras do antigo PSDB, como o ex-governador e atual vice-presidente Geraldo Alckmin, com o campo popular. Eles não eram adversários só de um ponto de vista tático, mas de um ponto de vista estrutural, porque o campo popular e o campo da classe média muito raramente — se é que houve algum momento — estiveram juntos.

Isso me lembrou a situação chilena pós-Pinochet, em que houve uma associação entre dois grandes adversários, o Partido Socialista e o Partido Democrata Cristão, que haviam disputado o poder até o momento em que a Democracia Cristã apoiou o golpe militar que derrubou Salvador Allende. Na saída do [Augusto] Pinochet [ditador do Chile entre 1973 e 1990], esses dois partidos se unificaram, o que foi uma grande novidade histórica. No Brasil, algo parecido aconteceu: uma unidade entre dois campos muito opostos.

Essa Concertación está sendo feita à brasileira. No Chile, os partidos são muito mais estruturados, organizados e programáticos. A unidade é mais formalizada. Aqui, ela se dá mais entre indivíduos, e a base programática dela não fica clara, o que vai ter consequências mais para a frente.

Vamos falar das consequências. O impasse do título do livro não é só o impasse entre a democracia e um governo de viés fascista, mas também o impasse dentro da frente ampla que venceu o pleito de 2022, porque aí existe uma divergência muito profunda sobre qual deveria ser o programa de um Brasil democrático. Como essa divergência se mostrou no terceiro mandato de Lula?

Essa frente democrática me parece indispensável. Hoje, a democracia está ameaçada no Brasil, sendo solapada de maneira gradual, mas contínua. Um novo governo de extrema direita vai acelerar muito esse processo, como está acontecendo nos Estados Unidos.

Essa frente democrática, que é indispensável para conter o avanço da ameaça à democracia, tem dois programas dentro dela. Eles não só são concorrentes, como também são incompatíveis entre si até certo ponto. 

Um dos programas propõe a adoção da austeridade: há uma pressão enorme por um setor da frente democrática no sentido de contenção dos gastos públicos de maneira bastante radical, porque vai em direção à desindexação dos pisos constitucionais com saúde e educação [ou seja, remover a obrigatoriedade de reajuste de gastos mínimos de acordo com a arrecadação do governo] e desvinculação dos benefícios previdenciários em relação ao salário mínimo. Isso representa um impacto enorme para a população de baixa renda.

Você também tem um programa de aumento do investimento social. Por meio desse aumento, haveria uma alavancagem da economia que poderia, num cenário bastante positivo, chegar à reindustrialização do país.

Esses dois programas são incompatíveis. O resultado disso é que a frente acabou ficando relativamente paralisada. Ela conseguiu praticar um certo investimento social, que foi suficiente para manter unificada a base dos eleitores de zero a dois salários mínimos de renda familiar mensal, que é o habitat principal do lulismo. Mas ela não foi capaz de trazer para si uma maioria confortável dos eleitores, o que dependeria de passar para a faixa de renda das famílias que ganham de dois a cinco salários mínimos por mês, com eleitores que continuam bastante divididos e são, até certo ponto, majoritariamente contrários ao governo. Eu creio que desse grupo vão sair os indecisos que vão decidir a eleição, que parece ser, neste momento, uma eleição bastante apertada.

Por outro lado, como não foram feitas as concessões que os capitalistas esperavam, nós vivemos algo semelhante a um ataque especulativo no final de 2024. O ataque especulativo levou a uma fuga de capitais, desvalorização do real, aumento do preço das importações e um repique no custo de vida, o que levou o governo a perder 12 pontos de ótimo e bom. A aprovação do governo caiu de 36% para 24% entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025.

Desde então, o governo está tentando se recuperar. O montante perdido de aprovação foi recuperado em parte, e agora está oscilando em torno de 31% e 33%. Nós não sabemos muito bem o que vai acontecer, mas eu tenho a impressão de que essa oscilação pode ser decisiva, porque a margem entre os dois candidatos principais está ficando muito apertada.

Isso significa o seguinte: nenhuma das duas alas da Concertación está realmente satisfeita com o resultado do governo, e ele não pôde se desenvolver plenamente.

No seu conceito de lulismo, você caracteriza os dois primeiros mandatos como redução da pobreza com manutenção da ordem, um reformismo fraco que faz redistribuição de renda sem conflito. No terceiro mandato, com esse conflito interno, você acha que essa mesma definição se aplica?

O lulismo ainda funciona no que diz respeito à manutenção da sua própria base. Se a situação tivesse continuado como estava no começo de 2025 [com 24% de aprovação], seria muito difícil, porque ali o presidente começou a perder aprovação no Nordeste, entre os católicos e entre as pessoas que têm renda familiar mensal entre zero e dois salários mínimos, a base do lulismo. Isso sugeria uma eleição difícil. Se essa situação tivesse se mantido, seria possível dizer que o lulismo foi afetado. Mas houve recuperação, e o lulismo está de pé.

O problema é que a situação do Brasil e do mundo se tornou mais difícil, porque estamos em face de uma extrema direita que não existia com essas características até 2014. A extrema direita tomou conta de uma parte da sociedade. Eu não digo que metade da sociedade seja de extrema direita, porque não é. O eleitorado que parece se aproximar da extrema direita deve andar por volta de 15%. Mas 15% é muita gente. Diante de uma certa fragmentação que existe no sistema brasileiro, esse eleitorado tem capacidade de imantação: ele pode puxar outros setores, como um ímã.

Nas eleições pelo mundo de 2024, boa parte dos governos foi derrotada, porque a perda do poder de compra das pessoas trouxe muita insatisfação. Isso é uma coisa que o eleitor tende a atribuir como responsabilidade dos governos nacionais. Então um outro fator que não é só brasileiro, mas se expressa no Brasil, é uma crise de endividamento, em que as dívidas viram uma bola de neve por causa da cobrança de juros, e uma dívida se sobrepõe à outra. Uma crise de endividamento é uma coisa muito séria, e o Brasil tem praticado juros muito altos, o que incide sobre esse problema.

É um conjunto de questões que não foram postas desta maneira em 2014. São novos desafios.

Falando em novos desafios, eu achei interessante uma analogia que você faz no livro quando você escreve que o Jair Bolsonaro construiu o Nordeste dele no meio evangélico, uma base leal e ampla o suficiente para competir com a base do lulismo, que seria o Nordeste. Você reitera que o voto nunca é definido por um só fator. Muitas coisas entram nessa conta, mas hoje um público que era muito fiel ao Lula — de zero a dois salários mínimos — também é muito influenciado por religião, talvez de uma forma que não era antes da eleição de 2018. Como é que a religião alcançou esse ponto de importância?

O Brasil vem mudando há cerca de 40 anos. Quando eu era jovem [Singer tem 68 anos], o Brasil era um país completamente católico. As outras confissões eram residuais. Mas uma das grandes transformações do Brasil é a constituição de um segmento evangélico imenso. As estatísticas falam em cerca de 30%, e em grandes centros urbanos me parece que pode ir além disso.

O Brasil deixou de ser um país completamente católico e passou a ser um país semicatólico, mas com uma importante participação evangélica. Do ponto de vista político, é importante observar que até 2018 esse segmento não estava unificado. Ele não tinha encontrado um ímã, e o Jair Bolsonaro foi capaz de fazer isso.

Bolsonaro fez uma aliança férrea com os pastores. Ele levou os pastores para o governo. Isso muda tudo. Às vezes a gente pensa muito em termos ideológicos. Ideologia é importante, mas tem uma outra parte que não tem nada a ver com ideologia e sim com um aspecto muito material da política. Bolsonaro isentou de impostos determinadas atividades religiosas, igrejas e pastores, deu uma série de benefícios e levou pastores para posições chave no governo.

Eu acredito que isso tenha dado um resultado qualitativo novo no Brasil. A partir do Bolsonaro, esse segmento se unificou, e se unificou em torno dele. Tanto é assim que ele conseguiu mais ou menos a mesma proporção de votos em 2018 e 2022 nesse segmento. Eu fui medir o segmento, e ele é mais ou menos equivalente ao Nordeste em termos de eleitores. Por isso eu digo que Bolsonaro encontrou seu Nordeste. É uma base fortíssima.

Agora tem a questão do presente. Jair Bolsonaro não pode ser candidato porque ele se tornou inelegível e foi condenado à prisão por tentativa de golpe de estado — a meu ver, e digo isso do ponto de vista da defesa da democracia, nada mais apropriado.

Eu queria lembrar que o Bolsonaro já era chamado de “mito” bastante tempo antes dele vir a se tornar presidente. Eu acho que ele é uma liderança carismática, que dialoga com um segmento importante da população. E, como o carisma não se transmite, isso não passa diretamente para o candidato que ele designou, seu filho mais velho.

Eu noto, no segmento evangélico, uma indecisão bastante compreensível. Eles se unificaram em torno de uma liderança carismática, mas essa liderança está afastada.

O vídeo da ex-primeira-dama Michelle contra Flávio é muito forte, e veio num momento em que sua candidatura estava bastante abalada, porque veio na sequência da denúncia de que ele havia pedido dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. No vídeo, ela está quase dizendo algo como “eu não tenho nada a ver com essa candidatura”. Na sequência, o Centrão se afastou e ele acabou bastante isolado no começo do processo eleitoral oficial.

O pastor Silas Malafaia não esteve no lançamento da candidatura no Rio de Janeiro no dia 16 de agosto, mas veio para o ato na Avenida Paulista ontem [7 de setembro]. Eu acho que começa um processo de reaproximação, uma tendência das lideranças evangélicas de irem na direção de Flávio, já que ele foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e é o representante daquilo que unificou esse segmento.

Bolsonaro colocou pastores no governo, e colocou um em específico no Supremo Tribunal Federal: André Mendonça, que protagonizou a liberação de vazamentos seletivos sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Fiquei pensando numa formulação sobre comportamento antissistema do Theodor Adorno que você apresenta no livro, que diz que algumas camadas oprimidas acabam se associando a qualquer um que aparece de forma crítica ao sistema. Será que o comportamento do ministro Mendonça pode influenciar um voto antissistema que iria para o candidato que também está envolvida no mesmo sistema imbricado com o Banco Master, Flávio Bolsonaro?

Nós estamos assistindo a um imbróglio porque esse é um episódio com tantas nuances, que envolve esse tipo de relação do banqueiro com personalidades da política e das instituições de uma forma tão abrangente que parece pegar todos os campos. Isso constitui, para o eleitor comum, um episódio muito difícil de entender. O eleitor comum está muito distante, no seu cotidiano, das nuances que os jornalistas, políticos, intelectuais, cientistas políticos e sociólogos se dedicam a entender e estudar.

Com a maioria não entendendo os detalhes do que aconteceu, algumas coisas vão centralizar o olhar. Uma delas é a figura do ministro Alexandre de Moraes, porque ele foi colocado no centro do debate em torno da questão democrática durante o governo Bolsonaro e depois do 8 de Janeiro, por circunstâncias que até certo ponto dependeram dele e até certo ponto não dependeram dele.

Eu acho que muito do que vai ser percebido pela fatia mais à direita do eleitorado vai ser relacionado a Alexandre de Moraes. Ele vai ser identificado como o sistema, e quem está contra ele será o antissistema. Todas as nuances que possam eventualmente dizer o contrário podem passar despercebidas.

Foto reproduzida da Internet


Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *