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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Está na Revista Fórum
A prisão de Fernando Andrés Cerimedo na Bolívia abriu uma nova frente de investigação que pode voltar ao episódio mais conhecido envolvendo o argentino no Brasil: a live de novembro de 2022 em que ele apresentou um suposto dossiê para tentar sustentar a tese, já desmentida, de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras.
Agora, um pedido apresentado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta fazer a ponte entre aquela operação e o atual processo eleitoral brasileiro. A chamada “Notícia de Fato Superveniente”, protocolada em 24 de agosto pelo deputado federal Rui Falcão (PT-SP), pede cooperação jurídica com a Bolívia para preservar e compartilhar dados dos equipamentos apreendidos com Cerimedo.
Entre eles está uma estrutura que o Ministério Público boliviano descreveu publicamente como uma “granja de bots”, classificação usada por autoridades bolivianas para classificar a estrutura para disparo em massa de mensagens e publicações em redes sociais. A estratégia é usada pela ultradireita transnacional para propagar discurso de ódio e fake News. A ação foi importada para o Brasil pelo clã do ex-presidente, que tinha o filho “02”, Carlos Bolsonaro (PL), como comandante do chamado Gabinete do Ódio.
No documento, Rui Falcão pede que “seja apurado se a estrutura de contas automatizadas apreendida na Bolívia foi utilizada ou estava sendo preparada para interferir no processo eleitoral brasileiro de 2026, mediante disseminação de desinformação, amplificação artificial de conteúdo, ataques ao sistema eletrônico de votação ou favorecimento e desfavorecimento de candidaturas”.
O deputado ainda solicita que “seja especificamente investigada a existência de pagamentos, contratos, propostas comerciais ou outras formas de remuneração provenientes de pessoas físicas, pessoas jurídicas, partidos políticos, candidaturas ou intermediários brasileiros, relacionados à prestação de serviços de comunicação, propaganda ou operação digital por Fernando Andrés Cerimedo”.
A Notícia de Fato ainda solicita que “a Polícia Federal, recebidas as provas, promova o cruzamento técnico com os elementos já existentes na investigação relativa a 2022”. E é aí que a história de Cerimedo volta a se encontrar com a trama golpista que levou Jair Bolsonaro a ser condenado a 27 anos e 3 meses de prisão.
A live que colocou Cerimedo no radar da PF
Em 4 de novembro de 2022, poucos dias depois do segundo turno da eleição presidencial, Cerimedo fez uma transmissão ao vivo na qual apresentou um suposto dossiê destinado a sustentar a existência de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras. O material teve ampla repercussão no Brasil e no exterior.
A investigação brasileira posteriormente encontrou elementos que apontaram para uma participação mais próxima de integrantes da estrutura que atuava em torno do então presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a peça apresentada ao STF, a denúncia da Procuradoria-Geral da República registrou que a organização criminosa havia preparado materiais para divulgação por Cerimedo, com o objetivo de manter a narrativa de fraude e enfraquecer a legitimidade do processo eleitoral.
Além disso, a PGR apontou que dados extraídos do celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e delator do esquema, mostraram que ele procurou o telefone de Cerimedo por meio do então major Angelo Martins Denicoli. Em colaboração premiada, Cid teria confirmado a ligação entre Denicoli e Cerimedo e relatado que o grupo interessado em supostas fraudes nas urnas mantinha comunicação com o argentino.
O material apresentado na live também não teria surgido simplesmente das mãos de Cerimedo. Segundo a peça, integrantes do grupo editaram a apresentação e produziram novos conteúdos a partir dela para ampliar e diversificar a propagação da tese de fraude.
A lacuna deixada pela PGR
Cerimedo foi indiciado pela PF em 2024, mas não entrou na denúncia apresentada pelo Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, no processo da trama golpista.
A razão apontada pela PGR foi justamente uma lacuna que os novos dados apreendidos na Bolívia podem ajudar a preencher: embora estivesse comprovada a divulgação de conteúdos falsos, ainda não havia elementos suficientes para determinar se Cerimedo era apenas um vetor de propagação ou se tinha conhecimento e domínio sobre o projeto criminoso.
Suas condutas foram, por isso, remetidas para processos apartados da ação que condenu Bolsonaro.
Agora, a Notícia de Fato apresentada pede para que a PF faça o cruzamento dos equipamentos apreendidos na Bolívia com os dados já obtidos pela investigação em 2022, inclusive os extraídos dos aparelhos de Mauro Cid. A intenção é identificar conversas, arquivos, horários, operadores e eventuais conexões que permitam reconstruir a cadeia de comunicação de Cerimedo.
Da fraude de 2022 à eleição de 2026
O novo elemento é que Cerimedo voltou a aparecer em discussões sobre as urnas brasileiras em 2026. Em 23 de julho, ele participou de uma transmissão com Eduardo Bolsonaro, na qual voltou a questionar a confiabilidade do sistema eleitoral. Clique aqui para conferir.
Menos de um mês depois, em 18 de agosto, foi preso na Bolívia. Durante as buscas realizadas pelas autoridades locais, foram apreendidos celulares, computadores, documentos, dinheiro e equipamentos que, segundo o Ministério Público boliviano, formariam uma espécie de “granja de bots”.
A propaganda eleitoral brasileira havia começado dois dias antes.
A coincidência levou os autores da petição a pedir uma perícia específica para verificar se a estrutura tinha alguma relação com o processo eleitoral brasileiro.
Flávio Bolsonaro entra no alvo da perícia
A peça apresentada a Moraes pede para que seja investigado se a suposta “granja de bots” seria usada na campanha de Flávio Bolsonaro.
Entre os termos que deverão ser procurados nos equipamentos estão os nomes de Flávio e Eduardo Bolsonaro, além de contratos, pagamentos, comunicações com campanhas brasileiras, bancos de conteúdo, contas brasileiras, publicações em português e ferramentas de automação.
O pedido também mira a movimentação financeira: a PF deve procurar indícios de pagamentos, contratos ou propostas comerciais feitos por pessoas, empresas, partidos, candidaturas ou intermediários brasileiros para serviços de comunicação, propaganda ou operação digital.
Caso sejam encontrados registros que liguem Cerimedo a uma campanha brasileira, a investigação poderá estabelecer quem o contratou, quais serviços foram prestados, quem operava a estrutura e quem financiava a operação.
A ponte entre os dois episódios
A iniciativa apresentada ao STF tenta, na prática, recuperar a ponta que ficou aberta na investigação de 2022.
De um lado está o Cerimedo que, em 4 de novembro de 2022, apresentou a falsa tese de fraude nas urnas e voltou a propagá-la em dezembro.
De outro, está o Cerimedo de 2026, novamente discutindo o sistema eleitoral brasileiro ao lado de Eduardo Bolsonaro e, semanas depois, preso na Bolívia com equipamentos que autoridades locais descrevem como uma estrutura de automação de redes.
O STF agora poderá tentar descobrir se existe uma conexão documental entre esses dois momentos.
Quatro anos depois da live que ajudou a alimentar a ofensiva golpista contra o resultado eleitoral de 2022, os aparelhos apreendidos na Bolívia podem fornecer os elementos que faltaram para esclarecer qual era, de fato, o papel de Cerimedo naquela operação — e se sua atuação voltou a mirar as eleições brasileiras em 2026.
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