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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
IstoÉ
O perigoso caminho do ódio
É natural que partidos e candidatos testem os limites da campanha eleitoral antes de seu início. Explorar o debate em torno de temas que mais cativam o eleitorado ajuda os marqueteiros a calibrarem a estratégia para a disputa nas urnas em outubro. Seria razoável, portanto, uma discussão ampla em torno das tantas demandas sociais reivindicadas pelas ruas desde junho de 2013. Mas o que se vê até agora é um embate agressivo apoiado em argumentos rasteiros e pautado pelo ódio, com acusações e xingamentos mútuos. No equívoco de tomar o desejo geral de mudança pelas vaias e xingamentos à presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa, PT e PSDB passaram a jogar literalmente para a torcida. Sequestram o necessário debate em torno de planos concretos de governo e se arriscam num jogo que não convence o eleitor.
O vale-tudo começou no submundo da internet, viralizou pelas redes sociais afora até desembarcar nos estádios… e nos palanques. No fim de semana passado, dois atos partidários sintetizaram essa campanha do ódio: a convenção nacional do PSDB, que confirmou Aécio Neves como candidato à Presidência, no sábado 14, e a convenção estadual do PT, no dia seguinte, que oficializou o nome de Alexandre Padilha na corrida pelo governo de São Paulo. No evento petista, o ex-presidente Lula aproveitou o clima para apostar em dividir o País ideologicamente: “A elite brasileira está conseguindo fazer o que nós nunca conseguimos: despertar o ódio de classes”. Na convenção tucana, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elevou o tom.“Não queremos mais os corruptos, os ladrões que ficam empulhando o Estado. Esses nós não queremos”, bradou, para um coro eufórico de cinco mil militantes. Além de Aécio e FHC, discursaram o ex-governador José Serra e o presidente do Solidariedade, deputado Paulinho da Força, que no dia 1º de maio – Dia do Trabalhador – disse que Dilma deveria estar no presídio da Papuda em Brasília com os demais condenados do mensalão. “Vamos enfrentar um governo que o povo nem vaia mais, esculhamba, como aconteceu no jogo do Brasil”, declarou na convenção tucana.
Época
Não vai ser nada fácil
Foi um começo de gala para o principal torneio de futebol do planeta. Média de gols alta, craques em ascensão, seleções brilhando, torcidas do mundo todo enchendo os estádios. A cada jogo que passa, a Copa do Mundo do Brasil prova que pode se tornar o melhor Mundial da história. Os números ajudam a comprovar a expectativa. Fazia tempo que uma Copa do Mundo não começava com tantos gols. Muito tempo. Desde 1958, a média de um Mundial não superava a marca de três gols por jogo. Considerado o período em que a Copa do Mundo passou a contar com 32 seleções divididas em oito grupos, em 1998, isso nunca acontecera (leia mais no quadro abaixo). Em 2014, a primeira rodada trouxe nada menos que 49 gols – em 2010, foram apenas 25.
O gol é o detalhe mais importante do futebol, mas não apenas ele faz desta Copa a melhor em décadas. As partidas têm sido emocionantes, e as viradas corriqueiras. Foram seis na primeira rodada – um recorde histórico em Copas. Brasil, Holanda, Costa do Marfim, Suíça, Costa Rica e Bélgica saíram atrás no marcador para vencer no apito final. Nos últimos quatro Mundiais, isso acontecera apenas uma vez na primeira rodada. A alta frequência de viradas é resultado de seleções jogando de maneira ofensiva. Os gols saíram mais rapidamente: dos primeiros 60 gols da Copa, 15 vieram em 30 minutos. Resultado: os adversários buscam a virada até o fim – e 25 gols saíram na meia hora final do jogo.
A qualidade do futebol até agora apresentado nesta Copa é um motivo real de preocupação para a Seleção Brasileira. Para sermos campeões, precisaremos passar por adversários que têm jogado bem melhor que o Brasil – sobretudo o Brasil hesitante que empatou em zero a zero com México na última terça-feira, em Fortaleza. Nenhuma lista de favoritos à taça poderia excluir os donos da casa, ainda mais quando são os únicos pentacampeões mundiais. Mas outras quatro seleções despontam como ameaças ao sonho do Hexa: Holanda, Alemanha, Itália e – naturalmente –Argentina.
CartaCapital
Chance perdida
por Mino Carta
Aécio Neves e Eduardo Campos perderam uma oportunidade de puro diamante para mostrar maturidade política, elegância e até mesmo astúcia. Senhoras e senhores da tribuna vip do Itaquerão, na estreia da Seleção Canarinho, primeiro dia da Copa, encenaram um espetáculo que envergonha o Brasil diante do mundo. Quase todos ali são, obviamente, eleitores dos candidatos da oposição, e estes desperdiçaram a chance de condenar o clamoroso, selvagem desrespeito a quem chefia o Estado e o governo.
O pior calão atirado pelos burguesotes chamados a engalanar a festa não surpreende. A dita elite brasileira em boa parte é primária e feroz, prepotente e vulgar, arrogante e ignorante. Muito ignorante. No fundo, a tribuna vip funcionava no Itaquerão como o alpendre da casa-grande. Creio que aquela manifestação, tão reveladora dos comportamentos de quantos ostentam as grifes e acreditam viver em Dubai, não favoreça as candidaturas da oposição, ao acentuar as diferenças e precipitar a polarização. Mas onde estavam os marqueteiros?
Cabia, no meu entendimento, a reação ponderada e imediata de Aécio e Eduardo, prontos a defender a sadia ideia de que a Presidência da República faz jus ao respeito devido ao cargo, acima do acirramento do confronto eleitoral. Aécio, depois de ter declarado que o ocorrido exibia a impopularidade da presidenta, voltou atrás nas redes sociais para uma crítica morna e tardia. No entanto, a disputa torna-se mais agressiva, com a contribuição useira da mídia. Quem odeia quem? Segundo a tese em voga na área da reação, o PT se esforça, com raro brilho e denodo vitorioso, para ser odiado. E ganha as manchetes a polêmica entre Fernando Henrique e Lula, com réplica, tréplica e não sei mais o quê.
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