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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Um início de ano movimentado
Por Stella Galvão
Janeiro estava bem movimentado. Posse presidencial, de governadores, titulação dos nobres parlamentares, vários nem tão nobres assim, mas vá lá. E as chuvas de janeiro transformando paisagens fluminenses antes bucólicas em palco de tragédias humanas terríveis. No plano do drama encenado, houve um último capítulo de novela, e no gênero pornô televisivo recheado de besteirol, a estréia de mais um big brother. E houve ainda os queixumes da governadora potiguar eleita, diante de bizarrices encontradas como uma fatura de carros adquiridos pelo antecessor, possantes máquinas que equipariam a polícia, pendurada em concessionária.
Quer dizer que equipar as forças que dão amparo à lei passa também pela delinquência? A mesma que motiva membros graduados da sociedade natalense a circular em novos possantes que não são pagos e depois de algum tempo são recolhidos pelas lojas. Para que a operação tenha novo início, em nova concesssionária. Como não são tantas assim, os delinquentes espertamente fazem rodízio. E depois quem se negaria a ‘vender’ para eles, que estão nas colunas sociais e em alguns postos de compadrio disputados quase a tapa? Sujeito abjetos sem ética nem respeito a coisa alguma senão aos seus apaniguados. Topeiras torpes.
Em tempos torpes, entrou novamente no centro das atenções televisivas o desfile de glúteos avantajados e bícepes idem, matéria prima principal da Baixaria Bem Bolada. Desta vez claramente é um vale tudo, com os contendores disputando o cetro do que se expôs mais vivamente sem roupa e sem qualquer sombra de algo mais que o projeto de ‘virar celebridade’. Quer dizer, três meses em que os espectadores, muitos frustrados em sua própria intimidade, assistirão a sexo na TV, torcendo por casais casuais, embarcando na futrica e no golpe do dia. Ou da hora, para os doentes que largam quase tudo para assistir o desfile de bizarrices nem mesmo sonhada pelo pintor irlandês Francis Bacon (1909-1992), mestre em revolver entranhas.
E há as chuvas e seus desfechos trágicos, incluindo o discurso de alguns políticos sobre o fatalismo de tantas perdas. Nenhuma palavra sobre o desinvestimento em obras que melhorariam a vazão das águas ou campanhas permanentes, com direito a multa, para que o brasileiro não jogue lixo nas ruas, entupindo bueiros, córregos, valetas etc.Em Natal, as chuvas de janeiro resultaram novamente em ruas mais esburacadas que um bom queijo suíço, sem que a municipalidade mova uma palha. Ruas de paralelepípedo como trilhas de rally que testam diariamente a resistência de pneus e suspensão, para alegria das empresas do ramo.
Em meio a esse noticiário, os potiguares receberam a boa notícia do reconhecimento dos Clowns de Shakespeare, prata da casa, um dos grupos empenhados em soprar cultura de qualidade na direção dos ventos que aqui circulam. E, no terreno nem sempre fértil da cultura televisiva, o destaque ficou para um aspecto do final da novela das nove. Não a vilania de alguns personagens e a bondade infinita e clichê de outros tantos, mas o papel especialmente delicioso da Dona Brígida, uma senhora nonagenária vivida pela excepcional atriz Cleyde Yáconis. Pois Brigida apreciava senhores, sim, e não fazia mistério disso, encerrando o folhetim com marido e amante constituídos. Ponto para a dramaturgia brasileira por ousar tocar num tema tabu: a sexualidade entre idosos. Pois a personagem serelepe enraiveceu jovens tuiteiros, ,muitos deles extremamente preconceituosos. Quer dizer que os brothers podem mas a vovó não? Quanta sandice!
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
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