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Coletânea de Causos

Que causos são esses, Barbosa?

Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

Geral

Crônica

O comissionado ausente e os burros n’água

Por Stella Galvão

O dia D estava chegando e Zé das Couves, com cargo comissionado em uma secretaria qualquer, estava à beira de um ataque de nervos. Havia faltado à reunião convocada estrepitosamente pela chefia do executivo local. Na hora aprazada, eis que o referido elemento, do primeiro escalão da ilibada administração, encontrava-se em franca conversação com um emissário de outro grupo político. Diante deles, fartura de carnes e bebidas, além do agrado da conversa fácil, da promessa de louros no grupo que assumiria as burras do governo já, loguinho mesmo. Como era tudo na base do fio do bigode, palavra empenhada e essas coisas antigas de matuto, ele vacilou. Ligou para a comadre e para a segunda patroa, pedir conselho. Nenhuma disse que sim nem que não, mas lembrou dos gastos que se avolumavam mês a mês.

Dia seguinte mandou a patroa oficial ligar para a secretária não comissionada alegando que a ausência se devia uma gripe forte, uma súbita virose. Passou o dia encasquetando. Teria sido visto por algum aliado do time atual? Julgou ter avistado, no lado oposto da rua onde se deu o encontro com o emissário do adversário, dois carros de som, ambos portando e esbravejando a propaganda de dois parentes da chefia suprema. Calvo, seria facilmente reconhecido também pela protuberância abdominal.

Macaco velho, ele não queria trocar o certo pelo duvidoso. Pediu um adiantamento para refrescar os pensamentos, e ouviu de volta apenas o tilintar do engradado de cerveja para afogar as mágoas de comissionado sem carro. Sim, não se conformava que o vizinho médico esbanjasse verba oficial circulando à vontade em um 4 x 4 reluzente e sem um arranhão sequer. Ele, comissionado de um órgão vital à urbanidade, tinha que se arrastar no Corolla que o pai havia comprado com o caixa 2 da campanha anterior.

Urgia conseguir se enfiar em outra reunião para entrar na lista dos colaboradores fiéis. A coisa tinha ficado feia e exigia uma desculpa consistente. Então, quando sobrou um tempinho entre uma enrolada e outra no expediente de despachador de papéis com ordens inúteis, correu ao ambulatório médico. Simulou uma crise de pânico, agarrado ao jaleco do doutor. Gritou alto para ser ouvido até mesmo pelo barnabé que tivesse instalado na privada. Para sorte dele, a chefia do executivo enviara um emissário para colher assinaturas dos comissionados para registro em cartório. Ao ouvir o espatifado todo, o homem intuiu que ali tinha coisa e prontamente mandou defenestrar o ex-comissionado. Nem A nem B. Desgraceira!

*Stella Galvão é jornalista (graduada na UFRN), mestre em História da Ciência (PUC-SP), e colaboradora do blog. Trabalhou nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de S. Paulo, editou várias revistas científicas e se especializou em Bioética e em Gestão da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Stella já publicou dois livros de crônicas: ‘Entreatos’, em 2006, e ‘Calos e Afetos’, lançado recentemente em Natal e São Paulo, e mais recentemente em Acari, cidade em que nasceu. Atualmente é professora dos cursos de Comunicação da Universidade Potiguar e escreve crônicas no blog natalmuitoprazer sobre o universo da prostituição, tema de uma das pesquisas que desenvolve na UnP.


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