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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Ao Moacyr, com carinho
Quando soube que o grande escritor gaúcho Moacyr Scliar havia morrido, neste domingo, corri à caixa de e-mails para recordar sua generosidade e gentileza para com uma escritora de província. Ele, laureado três vezes com o prêmio máximo da literatura brasileira, o Jabuti, um ‘imortal’ da Academia Brasileira de Letras, era um homem amigável e sem pompa nem frescura. Em uma das nossas correspondências, escrevi depois de encontrar semelhanças entre uma crônica que ele publicava semanalmente na Folha de S. Paulo e uma de minha autoria. No mesmo dia, em oito de fevereiro do ano passado, despachei um e-mail informando tratar-se de texto do meu livro ‘Calos e Afetos’. Dois dias depois, ele respondeu-me com a simpatia que lhe era peculiar: “Stella, obrigado pelo e-mail e pelo inspirado texto. O final é o perfeito anti-clímax… Recebe os parabéns e o abr. do Moacyr.”
Em sua homenagem, reproduzo as crônicas, dele e minha.
Romances podem acontecer diariamente, mas encontrar um verdadeiro amor em Londres pode ser tão difícil quanto encontrar extraterrestres, segundo declarou um economista londrino. Peter Backus, professor de economia na Universidade de Warwick, calculou que tem 0,00034% de chances de encontrar um amor na capital inglesa; é aproximadamente a mesma chance de que existam extraterrestres na nossa galáxia. Backus, 31 anos, quer uma mulher radicada em Londres, com idade entre 24 e 34 anos, com formação universitária, e que o atraia fisicamente, e que veja nele um parceiro ideal. Folha Online
ELE NADA tinha de excepcional, um homem comum, nem alto nem baixo, nem feio nem bonito. Isso não impedia que fosse extremamente exigente em matéria de mulheres. Sabia exatamente que tipo feminino o atraía, e sabia também que lhe seria muito difícil encontrar essa mulher ideal. Experiente em estatística, tinha até calculado as chances de que isso acontecesse, e eram desanimadoramente baixas: 0,00034%. Como lhe disse um amigo: “As mesmas chances que você tem de encontrar uma extraterrestre”. “Pois então um dia eu vou encontrar uma extraterrestre”, respondia ele, brincando.
Uma noite, voltando para casa, avistou na rua deserta àquela hora uma moça que fez o seu coração bater mais forte. De imediato teve certeza de que ali estava, enfim, a mulher de seus sonhos. Não era muito bonita, na verdade era um tipo estranho, com traços faciais pouco comuns, mas ele sabia que sua busca tinha terminado. Dirigiu-se à jovem, apresentou-se, falou do sentimento que o possuía naquele momento. Ela não respondia: sorria, simplesmente. Tomou-lhe a mão e seguiram juntos para o prédio em que ele morava, a pequena distância dali. Entraram no apartamento, localizado no último andar e, possuídos de uma paixão violenta, tiveram uma tórrida relação.
Depois, ficaram deitados, ele, ofegante, ela sorrindo em silêncio. Ele lhe fazia perguntas, queria saber que idade ela tinha, se possuía formação universitária: os indicadores que estabelecera e que a incluiriam na mágica percentagem de 0,00034%. Mas ela continuava em silêncio, e por fim ele acabou adormecendo. Acordou sobressaltado: alguma coisa estava acontecendo. A porta do terraço estava aberta e por ela entrava uma luz intensa, tão intensa que quase o cegava.
Apesar disso, pôde ver que a moça se dirigia para fora. E o que havia ali o deixou abismado: era uma nave espacial. Não muito grande, mas uma clássica nave espacial, com formato de disco voador e tudo. Nessa nave a moça entrou. O rapaz levantou-se para tentar detê-la mas teve uma súbita vertigem e caiu, desmaiado, sobre a cama. Quando recuperou os sentidos, já estava anoitecendo. A porta do terraço continuava aberta, mas não havia sinais de nave espacial ou da moça. Fora um sonho, aquilo? Ou realmente os 0,00034% se haviam transformado em realidade? Ele está pensando em ver o filme Avatar. Acha que vai reconhecer, entre as mulheres do planeta Pandora, aquela que o visitou. A única coisa que o faz vacilar são as escassas chances de que isso aconteça. Já fez o cálculo: são menores que 0,00034%.
Quando Luiz completou quarenta anos, anunciou aos amigos e parentes que iria para o sacrifício, melhor dizendo, que estava disposto a contrair núpcias. Que era chegado o momento dele completar aquele ciclo trivialmente previsível para o gênero humano. Casar, sim senhor, constituir família, portar aquele anel asfixiante na mão esquerda, encarar um carrinho de supermercado todo sábado, tourear tensões pré-menstruais com a coragem que garante a sobrevivência mensal de maridos com carga máxima de resistência à pressão. Todos os amigos eram pais, maridos e vez ou outra provedores de um lar.
Na ocasião em que Luiz tomou essa histórica decisão, era um rapagão ainda no vigor da testosterona, cheio de disposição para namoricos rápidos e fisicamente desgastantes, mas começava a sentir falta de um pezinho junto ao seu, um cuidado especial, uns cafunés, uma conversinha besta antes de ferrar no sono, tudo aquilo de bom e doce que acompanha os votos iniciais da vida a dois. Deu-se, então, início ao processo seletivo. Luiz pensou em análise curricular prévia, com as candidatas apresentando suas credenciais por e-mail mesmo, acompanhadas de fotos estilo miss: trajes social, típico e sumário. Este último tinha um peso diferenciado, podendo até mesmo eliminar postulantes menos curvilíneas. Adeptas de massa em excesso eram marcadas com uma interrogação por sugerir um futuro roliço na terceira idade, coisa que o moço abominava, embora ele já cultivasse certa saliência típica de um mestre cervejeiro.
Também era importante conhecer o histórico da moça, a quilometragem acumulada no quesito amoroso, se era dada a rotatividade elevada ou não. Pedia que se descrevessem em três palavras. Dedicada, amorosa, fiel e descritores equivalentes eram senhas para a qualificação à etapa seguinte, que consistia numa entrevista pessoal. Nessa altura, após um número abissal de fotos e currículos esquadrinhados, muitos descartados por razões atoleimadas como alguns centímetros extras de quadril ou a proporção de três namoros relâmpagos no curso de um ano, Luiz decidiu encontrar três moças.
A primeira se chamava Ana. Bonita, toda leve e solta, ela ria de um modo um tanto exagerado demais, na avaliação de um sisudo Luiz. Riu especialmente alto, na verdade gargalhou, quando ele questionou-a sobre a sonata preferida dela quando o compositor atendia por Johann Sebastian Bach. O jantar terminou na entrada. A segunda, Matilde, apareceu num tailleur vetusto demais, na avaliação de um Luiz solto e lépido após uns bons goles da caipirosca servida na entrada do bar. Ela empertigada, ele malemolente, não chegaram à sobremesa.
Finalmente, como acontece nas histórias mais saborosas, Nara apareceu como uma sereia que deixa águas tépicas e surge à luz da lua em noite abrasiva, dessas feitas para o amor. Deitou falação espirituosa, entre os vários quitutes e drinques que se sucediam, comentando displicentemente sobre literatura russa e a evidente influência shakespeareana da vilã até recentemente em cartaz no horário nobre. Entre uma conversa e outra, pontuada por comentários que eram puro deleite para o ouvido de Luiz, ela assobiava trechos de obras do compositor George Gershwin. Oh, o sumo de delicadeza, beleza e lustro. Preparavam-se para deixar o recinto rumo às estrelas quando se ouviu um ruído precariamente disfarçado. Nara finalmente arrotou em alto e bom som, derrubando o castelo da parceira perfeita desenhada na cabecinha fumacenta do triste quarentão.
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
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