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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Papai Noel, quero ser deputado!
Por Stella Galvão
Júnior era o orgulho da família. Menino precoce, todo sabido e interessado, ia bem na escola, era querido até pelo tio mais ranzinza. Se espelhava nos pais, que trabalhavam feito dois camelos que vão e vêm com turistas no lombo ao longo de Jenipabu, debaixo do sol inclemente da cidade idem. O pai era um microempresário, sempre preocupado com taxas a pagar e uma carga de impostos que Deus nos livre. A mãe era profissional liberal. Trabalhavam tanto que quase não viam o rebento. A casa tinha sido comprada à base de muita economia e apertos nos cintos. Era tudo na ponta do lápis, agora modernamente administrada por uma tabela Excel.
Viviam no fio da navalha, com o empate mensal entre receita e despesa, frequentemente com vitória desta última. Os filhos em escola particular, como toda família de classe média aspirava e se esfalfava para conseguir, desde que os governantes tinham abdicado da obrigação constitucional de assegurar educação e saúde a todo cidadão brasileiro. E se não pagassem plano de saúde, então? A rinite do menino viraria coisa pior, esperando e aguardando agendamento de consulta, exame, quem sabe um dia orientação para um tratamento. Isso quando não tinha que bancar a quebradeira do carro, vítima de ruas e avenidas esburacadas.
Tudo aquilo Júnior assistia e tinha claro que o exemplo de casa ele levaria à rua, estudando e depois labutando duro para prover aos seus. O menino também estava a par das últimas notícias. Soube, neste dezembro, que os brasileiros findavam mais 365 dias de labuta com uma tijolada na cabeça. Os nomes cintilantes dos eleitos para o Congresso Nacional, deputados e senadores, passam a embolsar a bagatela de 26 mil, 700 reais e uns quebrados todos os meses, uma correção de 61,8% que os brasileiros nem em sonho alcançarão em tempo algum. Soube-se ainda que, por obra e graça do princípio da equiparação salarial, deputados estaduais saem da condição de pobrezinhos, com salários de pouco mais de 12 mil, para um presentinho mensal de 20 mil reais.
Quase na mesma ocasião os pais de Júnior informaram que este ano os presentes vão escassear, a ceia não será esse balaio todo, não vai ter viagem de férias e outros apertos mais. Janeiro já se faz perto, com um monte de coisas extras a pagar, matrículas em escola, material escolar, reajuste do plano de saúde etc . E soube também que os nobres deputados tinham muito mais que uma fartura mensal garantida em suas contas bancárias. Moradia da melhor qualidade, verba para transporte, passagens aéreas free, inclusive para a parentalha, um monte de empregados e verba comissionada para isso e aquilo outro, despesas de impressão, Xerox e o macete a quatro…
Isto posto, Júnior tomou uma decisão definitiva. Não queria ser engenheiro, nem arquiteto nem muito menos jornalista, como aspirava a mãe. Iria seguir era os passos de um Tiririca, o palhaço deputado mais votado entre os paulistas, ou da velha raposa Paulo Maluf, que ganhou novo passaporte para Brasília apesar de investigado e condenado por polícias ao redor do mundo. Podia até ser jornalista, mas um homem de TV, sempre. Porque a TV, como se vê e viusabe, é a vitrine número 1. Mas tinha que ser um programa popular, bem escrachado, um espetáculo feito de grito, suor e baixarias. Júnior até escreveu um bilhetinho ao Papai Noel, mesmo ele, que já se julgava um cético: “Me deixa ir pra TV, vai, quero ser deputado!”
*Stella Galvão é jornalista e colaboradora do blog, professora da Escola de Comunicação e Artes da UnP, mestre pela PUC-SP e autora de ‘Calos e Afetos’ e ‘Entreatos’. Endereço no twitter @stellag19
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