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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.
Por Stella Galvão
Era dia de mais uma noite de Natal e a vida seguia seu curso, inabalável. A senhora Amara Cortez, entre o pernil e o peru, decidiu que faria só mais uma seqüência de bicicleta, mas se esqueceu da promessa no minuto seguinte. Receberia amigos antigos e diletos para uma conversinha amena, comida degustável e umas boas taças de vinho, aperitivos de fartas gargalhadas! Amara apenas desfrutava dessas tertúlias sociais duas vezes por ano, no aniversário e Natal. Na virada do calendário, ela se limitava a ver estrelas.
Já estava naquela fase outonal, beirando meio século, um bocado cansada de ouvir os disparates de gente nova que conhecia. Qual era o problema de depender de algo bom? Por que deveria explicar que precisava ficar a sós, ela, o gato e a margarida? Pois esse trio enfrentava o rigor dos dias de comum acordo, como se nada mais houvesse a desejar. Havia também a velha bicicleta ergométrica comprada em uma liquidação, que ela pedalava por muitas horas enquanto repassava as tarefas do dia. Simplesmente se acostumou ao guidão, ao assento e mesmo à corrente que rangia a cada pedalada por falta de lubrificação. Na vizinhança, todos a consideravam uma mulher agradável, embora pouco dada a intimidades.
O bom dia, dito de modo audível, não sofria inflexões. Mas ela se mantinha flexível, movimentando articulações e neurônios. Freqüentava o mesmo sebo há anos, de onde voltava com um ou outro clássico da literatura. E lia com dedicação por uma semana, sempre adiando tarefas banais adiáveis. O gato, um companheirão, se refestelava nas almofadas. Pensava: este ao menos não reclama de nada, desde que não lhe falte ração. A margarida era regada com cuidados de mãe recente. Ela sentia aquele cheiro suave que se desprendia da flor e respondia com mais fertilizante, água fresquinha e alegria por compor aquela sinfonia particular.
Pois não é que tinha desaprendido a depender de pessoas? A mãe e o pai já não mais habitavam o mesmo espaço cósmico, a irmã mudara-se para cidade distante, os sobrinhos pertenciam a uma geração pouco dada a manifestações afetivas daquele tipo presenciais com beijos e apertos. Os homens que conhecera foram ficando pelo caminho. Amou todos, cada um a seu tempo, e até colecionava fotos com uma frase de identificação. Nei, o veterinário de cascos duros. Hilton, culto e apenas suportável. Edson, o glutão de pavio curto. E o último, codinome magayver, pau para toda obra doméstica, mas inútil para conversas medianas. Todos a queriam de um modo possessivo ou dispersivo e ela simplesmente se cansou.
Recebia visitas, raras, mas sem disfarces. Dos poucos e diletos amigos que abraçava com gosto e vontade. Solidários, comungavam do respeito ao outro, mesmo nos longos silêncios. Coisa de alma irmanada, ela refletia, contente por coexistir. E assim os dias transcorriam. Noite avançada, era hora de dar uma beliscada no panetone, fazer um chamego no bichano e dar uma borrifada na flor. Mais um dia completo na vida daquela mulher, seu gato e a margarida.
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