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Coletânea de Causos
Incentivado por amigos resolvi escrever também causos particulares vivenciados ao longo dos anos. Alguns relatos são hilários, e dignos de levar ao programa Que História é Essa, Porchat. Seguem os causos em forma de coletânea.

por Leonardo Attuch, no Brasil 247
A extrema-direita contemporânea descobriu uma fórmula eficiente para chegar ao poder. Alimenta o ressentimento, transforma adversários em inimigos, fabrica guerras culturais permanentes, cria bodes expiatórios e oferece soluções simplistas para problemas complexos. O ódio mobiliza. O espetáculo conquista audiência. O escândalo produz engajamento. Mas existe um problema que, cedo ou tarde, se impõe: nenhum país é governado por memes, provocações ou transmissões nas redes sociais. A realidade cobra seu preço, como mostram as pesquisas recentes na Argentina.
Javier Milei é a mais recente demonstração desse paradoxo. Seu estilo histriônico, suas motosserras simbólicas, seus insultos diários ao Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um estadista globalmente reconhecido, e sua promessa de destruir o Estado encantaram uma parcela importante do eleitorado argentino cansada da crise econômica. Entretanto, passados os primeiros anos de governo, cresce a percepção de que o espetáculo não resolve a vida das pessoas. Quando chega o momento de pagar o aluguel, abastecer a geladeira ou encontrar um emprego, as guerras culturais deixam de ser prioridade.
As pesquisas divulgadas na Argentina mostram exatamente isso. A maioria dos argentinos deseja uma mudança de governo. A desaprovação à gestão cresce. A economia continua sendo apontada como o principal problema. A promessa de prosperidade ilimitada vai sendo substituída por uma pergunta simples: onde estão os resultados?
Não se trata de um acidente de percurso. Trata-se da consequência lógica do projeto político representado por Milei.
Nenhum governo pode prosperar quando renuncia à própria soberania. Nenhum país se desenvolve entregando seus recursos estratégicos, subordinando sua política econômica a interesses internacionais ou abrindo mão dos instrumentos necessários para planejar seu futuro. A história econômica das grandes nações demonstra exatamente o contrário. Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Japão, Alemanha e inclusive o Brasil construíram sua riqueza protegendo setores estratégicos, investindo em tecnologia, fortalecendo sua indústria e utilizando o Estado como indutor do desenvolvimento.
O receituário neoliberal promete eficiência, mas entrega desindustrialização, concentração de renda, fragilização do Estado e dependência externa. A experiência latino-americana das últimas décadas está repleta de exemplos. O mesmo pode ser dito de diversas economias que adotaram programas radicais de austeridade e privatização indiscriminada. Em praticamente todos os casos, os resultados foram aumento da desigualdade, perda de capacidade produtiva e redução do crescimento de longo prazo.
Na Argentina, o discurso libertário de Milei convive com uma realidade marcada pelo enfraquecimento da capacidade estatal, pela venda de ativos estratégicos e pela disposição de flexibilizar normas relacionadas ao patrimônio nacional, como a proteção das terras argentinas contra a aquisição irrestrita por investidores estrangeiros. Não surpreende que a ampla maioria da população rejeite esse caminho. A soberania continua sendo um valor compartilhado mesmo entre cidadãos que desejam reformas econômicas.
Existe ainda outro elemento decisivo para compreender o desgaste da extrema-direita: sua necessidade permanente de fabricar conflitos.
Governos precisam construir consensos mínimos para enfrentar desafios nacionais. Precisam dialogar com diferentes setores da sociedade. Precisam estabelecer relações produtivas com seus vizinhos. Precisam fortalecer instituições. A extrema-direita faz exatamente o oposto. Vive da polarização permanente. Ataca opositores, universidades, imprensa, movimentos sociais, artistas, cientistas e, muitas vezes, os próprios parceiros comerciais e países vizinhos.
Esse ambiente de conflito constante pode ser eleitoralmente útil durante algum tempo. Mas torna-se um obstáculo gigantesco quando chega a hora de governar.
Foi exatamente isso que ocorreu no Brasil com Jair Bolsonaro.
Ele também chegou ao poder impulsionado pelo antipetismo, pelas redes sociais e pelo discurso do confronto permanente. Também prometeu destruir o sistema político tradicional. Também adotou uma agenda econômica profundamente liberal. Também cultivou alianças automáticas com interesses externos em detrimento de uma política externa soberana. O resultado é conhecido: tornou-se o único presidente brasileiro, desde a instituição da reeleição, que sequer conseguiu conquistar um segundo mandato pelo voto.
Não foi derrotado apenas por Lula. Foi derrotado pela realidade.
O eleitor pode até se divertir com frases de efeito durante uma campanha. Pode rir das excentricidades de um candidato que parece romper com o establishment. Mas essa curiosidade tem prazo de validade. Quando o desemprego persiste, quando o salário perde poder de compra, quando o Estado deixa de oferecer serviços essenciais e quando a insegurança econômica se instala, o histrionismo deixa de parecer ousadia e passa a soar como irresponsabilidade.
É exatamente essa transformação que começa a ocorrer na Argentina.
O fenômeno Milei mostra que o marketing político não substitui um projeto nacional de desenvolvimento. A destruição do Estado não produz prosperidade. O desmonte da soberania não atrai desenvolvimento sustentável. O alinhamento automático a interesses estrangeiros não fortalece uma economia nacional. Pelo contrário: amplia a vulnerabilidade de países que já enfrentam enormes desafios estruturais.
Os governos passam. Os países permanecem.
Por isso, na hora de governar, as nações bem-sucedidas voltam sempre aos mesmos princípios: planejamento, investimento, indústria, ciência, tecnologia, educação, infraestrutura, integração regional e defesa da soberania. Não existe atalho para o desenvolvimento.
A extrema-direita consegue transformar indignação em votos. Consegue converter ressentimento em capital político. Consegue chegar ao poder explorando medos legítimos da população. Mas sua própria lógica impede que governe com êxito. Quem faz da destruição um método dificilmente consegue construir um projeto de país.
Por isso, o paradoxo tende a se repetir. O ódio pode abrir as portas do governo. Mas dificilmente sustenta um mandato quando a população volta sua atenção para aquilo que realmente importa: emprego, renda, crescimento econômico, estabilidade e esperança no futuro. Por isso mesmo, muito em breve, os argentinos estão livres do pesadelo Milei.
*Leonardo Attuch é jornalista e escritor. Criou o Brasil 247 em março de 2011 e a TV 247 em agosto de 2017. Antes disso, trabalhou nas redações do Correio Braziliense, do Estado de Minas e das revistas Veja, Exame, Istoé e Istoé Dinheiro, onde foi redator-chefe. Email: attuch@brasil247.com.br Twitter: @AttuchLeonardo. Publicou os livros “De jornalista a youtuber”, “A CPI que abalou o Brasil”, “Saddam, o amigo do Brasil”, “Eike, o homem que vendia terrenos na lua” e “Quebra de contrato”
Foto reproduzida da Internet
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